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Cartazes: imagens e mensagem  

 

Uma única imagem aliada a poucas, porém efetivas, palavras. A concepção de cartazes segue essa premissa desde o momento de sua invenção pelo compositor e autor de peças de teatro húngaro, Aloys Senefelder (1771-1834), o qual desenvolveu a litografia – um processo econômico de impressão baseado na repulsão entre água e substâncias oleosas sobre uma base de calcário, alumínio ou zinco – com o objetivo de imprimir suas próprias partituras musicais. Pintores e ilustradores rapidamente se apossaram da nova técnica para a criação de cartazes publicitários com marcante estilo artístico.

Jules Chéret (1836-1932) foi o pioneiro, no ano de 1860, na percepção do potencial comunicativo e persuasivo dos cartazes. Utilizando-se da imagem de figuras femininas alegres e sensuais, na divulgação de cabarés, salões de dança e teatros – tais como, o Eldorado, o Olympia, o Folies Bergère, o Teatro da Ópera, o Alcazar d’Ete e o Moulin Rouge –, o artista ficou conhecido como “o pai da libertação das mulheres”, exibindo-as usando corpetes decotados e fumando em público.

A imagem da mulher continua sendo ostensivamente utilizada por campanhas publicitárias no século XXI. Em abril de 2010, a intervenção artística realizada por Alexandre Vogler (1973-) num cartaz de divulgação da capa de Fani Pacheco (ex-BBB), na revista Playboy, foi impedida pela própria “estrela da capa” de integrar a exposição A Cidade do Homem Nu, no Museu de Arte Moderna de São Paulo (MAM-SP). Fani Pacheco acusou o artista plástico de desrespeitar sua imagem e, ainda, afirmou: “Arte não passa por cima da Constituição”. Alexandre Vogler defendeu sua obra: “Poderia ser ela ou qualquer outra figura. Não tenho nada contra a Fani. Minha questão é a street art, que já é uma categoria de artes visuais [...] Há pelo menos 50 anos, vemos artistas de pop art trabalhando com isso (a apropriação de imagens de outras pessoas). Pensei que não fosse produzir mais ruídos, esse espanto”. A crítica à “mercantilização” da imagem feminina fora, equivocadamente, levada para o lado pessoal.

Jules Cheret, Poster anunciando Loie Fuller (1862-1928) no Folies Bergère, 1897.

Alexandre Vogler, Fani Dark, 2010.

Humor, ousadia e o uso de meios publicitários também são os recursos empregados pelo coletivo nova-iorquino Guerrilla Girls, criado em 1985, para realizar suas ações-críticas no campo da arte, e por que não, da política. As integrantes do movimento – que somente se apresentam ao público sob máscaras de gorilas e se apropriam dos nomes de artistas mulheres negligenciadas pelo campo artístico – enfatizam em seu discurso artístico-político à crítica ao sexismo, ao racismo e à corrupção (no mundo da arte, da política e da cultura pop). O alto impacto das frases, das imagens e – nesse caso –, principalmente, das estatísticas, nos cartazes do Guerrilla Girls, coloca dúvidas quanto à tão festejada “libertação da mulher” nos cartazes de Julés Cheret.

Guerrilla Girls, Do women still have to be naked to get into the Met. Museum?, 2005

A vertente política do uso de cartazes pelas Guerrilla Girls, imediatamente, remonta-nos à Rússia socialista, cuja Revolução de 1917 rompeu com a influência francesa sobre as artes do leste europeu, em favor de uma linguagem visual própria, que fosse capaz de transmitir às diversas camadas da população o ideal revolucionário de uma coletividade justa e igualitária. Os dois principais artistas, nesse momento, eram El Lissitzky (1890-1941) e Alexander Rodchenko (1891-1956), os quais elaboraram estratégias de tornar a mensagem revolucionária facilmente assimilável ao público alvo (camponeses e proletários):

Rodchenko pregava a produção de peças simples, com mensagens muito claras, visto que a maioria das pessoas que viam a obra, principalmente os cartazes, eram analfabetas. Por isso, ele valorizava a tipografia, utilizando tipos sem serifa e em grande dimensão, os quais junto com elementos da fotomontagem tornavam seus trabalhos gráficos um encontro entre sinais, imagens e significados, que ao mesmo tempo, se convertiam em algo atrativo. (STRAUB, 2009)

Alexander Rodchenko, Cartaz para o departamento estatal da imprensa de Leningrado (utilizando a foto de Lilya Brik), 1924.

Quando se trata da relação cartazes-arte-mensagem, é inquestionável o reconhecimento que se tem da imagem e do nome (nesse caso, totalmente indissociáveis) de Joseph Beuys (1921-1986), artista alemão, cuja crença na transformação social como obra coletiva e criativa, utilizou-se largamente da produção de cartazes para a divulgação de suas ações artístico-políticas (movimento Difesa Della Natura, o Partido Verde, a Universidade Livre Internacional, entre outros), assim como, também, de suas performances e exposições.

Joseph Beuys, Difesa della natura, livro.

Turin: Il Quadrante Edizioni, 1988

A intensa urbanização, que principiou após a expansão da Revolução Industrial, na Europa do século XIX, eliminou da vista humana o campo, o rio e as árvores, impondo-lhe o concreto, os veículos e a propaganda. Pensando nessas questões da percepção visual no ambiente urbano, Alexandre Vogler formou o coletivo Atrocidades Maravilhosas, em abril de 2000, responsável pela colagem de 5000 lambe-lambes na região metropolitana do Rio de Janeiro, ao longo de um ano. Dessa vez, a imagem feminina retorna com muito mais impacto visual; deixemos o relato por conta do próprio autor da imagem, Alexandre Vogler: “Nesse momento a subversão se apresenta e conduz o transeunte ao choque, como em meu trabalho O que os detergentes fazem com as mãos de uma mulher, em que uma mulher, com unhas muito bem feitas, posa para um comercial de esmalte abrindo sua xoxota [...]” (VOGLER, 2001)

Alexandre Vogler, O que os detergentes fazem com as mãos de uma mulher, 2000.

O artista publicou um texto sobre esse projeto, na revista Arte&Ensaio, no qual levanta observações importantes a cerca da relação arte-propaganda: “A forma como a linguagem de consumo foi apropriada oculta uma certa autoridade da arte, possibilitando sua leitura como publicidade, design, e leva a arte em direção ao cotidiano, ao utilitário, ao não artístico” (VOGLER, 2001).

Intervenções artísticas, como as de Alexandre Vogler e seu coletivo, igualmente como aquelas realizadas pelo Guerrilla Girls, dão testemunho de mudança no campo da arte, a qual Joseph Beuys prenunciou na década de 70: “Se a publicidade é uma arte ou não, depende do que você está anunciando”. Ainda assim, não afirmaremos que o anúncio preferido da família brasileira, aquele da margarina Qualy, possa vir a ser legitimado pelo campo artístico.

REFERÊNCIAS

FONDAZIONE BONOTTO. Fluxus Collection: Josep Beuys. Disponível em: <http://www.fondazionebonotto.org/fluxus/beuysjoseph.html>. Acesso em: 27 jul. 2016.

GUERRILLA GIRLS. Disponível em: <http://www.guerrillagirls.com/projects>. Acesso em: 26 jul. 2016.

JOSEPH BEUYS: a revolução somos nós (2010-2011). Direção e curadoria geral de Solange Oliveira Farkas; curador convidado Antonio d’Avossa; realização do Serviço Social do Comércio. Administração Regional no Estado de São Paulo e Associação Cultural Videobrasil. São Paulo: Edições SESC SP, 2010.

JULES CHERET: The Complete Works. Disponível em <http://www.jules-cheret.org/>. Acesso em: 26 jul. 2016.

MOLINA, Camila. Guerrilla Girls, artistas e ativistas feministas de NY. O Estado de São Paulo. 11 nov. 2010. Disponível em <http://cultura.estadao.com.br/noticias/geral,guerrilla-girls-artistas-e-ativistas-feministas-de-ny,638044>. Acesso em: 25 jul. 2016.

PELLI, Ronaldo. “Não tenho nada contra a Fani”, diz artista que “exibiu” ex-BBB. G1 - Globo.com. 16 abr. 2010.  Disponível em <http://g1.globo.com/pop-arte/noticia/2010/04/nao-tenho-nada-contra-fani-diz-artista-que-exibiu-ex-bbb.html>. Acesso em: 26 jul. 2016.

STRAUB, Ericson. Cartazes russos para as massas. In: abc Design. 31 ago. 2009. Disponível em <http://abcdesign.com.br/categoria-1/os-cartazes-russos-e-a-comunicacao-com-as-massas/>. Acesso em: 25 jul. 2016.

VOGLER, Alexandre. Atrocidades Maravilhosas: ação independente de arte no contexto público. Arte & EnsaiosRevista do Programa de Pós Graduação em Artes Visuais EBA/UFRJ, Rio de Janeiro, n. 8, 2001. Disponível em: < http://desarquivo.org/sites/default/files/vogler_atrocidades_doc.pdf>. Acesso em: 25 jul. 2016.

NOTAS

[*] Bacharela em História da Arte pelo Instituto de Artes (UFRGS). (voltar para o texto)

 

COMO CITAR ESSE TEXTO

FROZZA, Marília. Cartazes: imagens e mensagem. HACER - História da Arte e da Cultura: Estudos e reflexões, Porto Alegre, 2016. Disponível em: <http://www.hacer.com.br/#!cartazesimagensmensagem/nvqt2>. Acesso em: [dia mês. ano].