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Creative Commons 4.0 Internacional (CC BY-NC 4.0) 

A moldura no espelho

“É no espelho mofado do tempo que você vê quem ou o quê você é.”

Curinguinha

Antoon Van Dyck (1599-1641)

Retrato do Comandante vestindo Armadura, com lenço vermelho, c. 1625 - 1627

Óleo sobre tela, 90 cm x 70 cm

Gemäldegalerie Alte Meister, Alemanha

São várias as ciências que trabalham com as múltiplas possibilidades de representação das facetas humanas: a psicologia, a psicanálise, a filosofia, entre outras; mas é através de uma incursão literária que faremos nossa reflexão sobre o retrato, este emblemático gênero de pintura.

 “- Nada menos de duas almas. Cada criatura humana traz duas almas consigo: uma que olha de dentro para fora, outra que olha de fora para dentro... Espantem-se à vontade, podem ficar de boca aberta, dar de ombros, tudo; não admito réplica.” – Jacobina (personagem do conto O espelho, de Machado de Assis). 

Barroco é um termo que suscita vários sentidos errôneos, conforme o Dicionário Oxford de Arte (CHILVERS, 2007, p. 43) afirma, porém, associa-se mais frequentemente a um estilo preocupado com o equilíbrio e ainda mais com a totalidade, sendo que cada parte é indissociável do todo. Busca criar a ilusão da realidade dos temas representados ou no mínimo uma verossimilitude, para isso utiliza-se de técnicas como jogos de luz, relevos, curvas, etc.

 

Este estilo trabalha muito com a questão retórica e, através das suas técnicas, cria um jogo dramático, por isso as obras deste período são consideradas como a arte do convencimento, pois lidam com as emoções e não só com a narrativa.

 

O retrato se desenvolveu muito durante o período Barroco, sobretudo em regiões nas quais o catolicismo não se impunha tanto (Holanda, por exemplo), esta religião o considerava como o pecado da autoidolatria, fato que relegou o gênero a segundo plano durante algum tempo.

 

Conforme o Dicionário Oxford de Arte (CHILVERS, 2007, p. 167), Antoon Van Dyck nasceu na Antuérpia em 1599, desenvolvendo seu talento precocemente, se formou na guilda em 1618 e logo tornou-se aluno de Rubens (1577-1640). Viajou para Londres a trabalho, em 1620 e, um ano após, fez seu tour italiano, aprendendo a refinar seu estilo que antes tinha o “vigor robusto das pinturas flamengas”. Em 1632, começou a trabalhar para a corte de Carlos I, sendo que sua fama e suas influências póstumas se devem em grande parte a estes retratos da aristocracia. Também pintou águas-fortes e aquarelas, algumas chapas da série Iconografia (1645) foram gravadas por ele mesmo. Faleceu na Inglaterra em 1641.

 

Quando olhamos para o Retrato do Comandante vestindo Armadura, com lenço vermelho, de Van Dyck, um retrato de meio corpo, sem paisagem ou natureza-morta para complementá-lo, ficamos intrigados de imediato com o olhar para a esquerda do comandante e com o lenço vermelho em seu braço. Isto se deve em parte ao fato de que o pintor direcionou o feixe de luz para que incidisse diretamente na lateral do corpo, uma técnica bastante utilizada no Barroco.

 

Van Dyck era ótimo retratista, dedicando-se quase que exclusivamente a isso no final da vida, ficou famoso por criar “o tipo ‘imortal’ do nobre, de olhar orgulhoso, figura esguia e dotados das famosas mãos ‘à Van Dyck’”. (CHILVERS, 2007, p. 168).

 

Observamos que o comandante está vestindo uma armadura imponente, tão brilhosa que reflete o lenço e, apesar de quase mimetizar-se com o fundo escuro, podemos perceber seus longos cabelos, seus lábios atraentes num rosto enigmático, uma echarpe preta em torno do seu pescoço, o detalhe da empunhadura de sua espada com um rosto de homem, sem se esquecer de dedicar um tempo para sua mão, com um possível ferimento no dedo indicador, apoiada num bastão.

 

A armadura e a espada são símbolos inerentes à liderança deste homem, são constituintes da sua personalidade, são formas de perpetuar para as gerações futuras (e, talvez, autorreafirmar) a sua importância.

 A alma exterior pode ser um espírito, um fluído, um homem, muitos homens, um objeto, uma operação. Há casos, por exemplo, em que um simples botão de camisa é a alma exterior de uma pessoa; - e assim também a polca, o voltarete, um livro, uma máquina, um par de botas, uma cavatina, um tambor, etc. – Jacobina (O espelho, Machado de Assis) 

Estar vestido com armadura no retrato evidencia a posição militar ocupada pelo homem, mas não apenas isso. A função da armadura é a proteção na guerra, o homem envolve seu corpo com metais sólidos a fim de evitar ferimentos fatais, de certa forma ela lhe dá uma pretensa imortalidade, ou seja, uma proteção para sua condição humana. Segundo o Dicionário de Símbolos: “Cada metal tem seu valor simbólico, vê-se quanta riqueza de significação cada arma pode conter, e a carga de poder mágico que se procura atribuir-lhe. (O ferreiro era considerado um mágico)”. (CHEVALIER, 2009, p. 81)

 

O psicanalista Carl Gustav Jung associa a armadura ao Self (conhecimento de si mesmo), considerado o arquétipo central. “O Self é um fator interno de orientação, muito diferente e até mesmo estranho ao Ego e à consciência. Não é apenas o centro, mas também toda a circunferência que abarca tanto o consciente quanto o inconsciente, ele é o centro desta totalidade [...]”. (BALLONE, 2005). A armadura pode então estar relacionada à consciência que o homem tem de si e das suas capacidades.

 

A presença da espada, ainda que sutil, visto que somente a empunhadura fica aparente, reforça a ligação ao posto elevado. O Dicionário Oxford de Artes (CHEVALIER, 2009, p. 392) afirma “A espada é o símbolo do estado militar e de sua virtude, a bravura, bem como de sua função, o poderio.” Segue esclarecendo que há um duplo aspecto nesta representação: o destruidor (podendo ser positivo se aplicar-se contra a maleficência, por exemplo) e o construtor (estabelece a paz e a justiça).

 

Pelo fato de ter dois gumes, a espada também pode significar duplo poder ou dualismo sexual, além de adquirir vários aspectos religiosos: relâmpago, água, dragão, arma nobre dos cavaleiros cristãos, etc. (CHEVALIER, 2009, p. 392).

 

As mãos pintadas por Van Dyck ficaram famosas por seus longos dedos brancos, por sua minúcia e graciosidade, sempre pousadas em algum lugar que as destacassem. Neste caso, uma das mãos não aparece, fica segurando a espada fora do alcance do enquadramento da tela, podendo ser apenas inferido que ela esteja ali, no entanto, a outra mão é erigida sobre um bastão e além da beleza já mencionada, nela se salienta o dedo indicador, que possui em sua base uma marca mais escura, provavelmente de um ferimento ou de uma atadura recém retirada.

 

Conforme Chevalier (2009, p. 123) “O bastão aparece na simbólica sob diversos aspectos, mas essencialmente como arma, e sobretudo como arma mágica; como apoio da caminhada do pastor e do peregrino; como eixo do mundo”. Além disso, significa “Apoio, defesa, guia, o bastão torna-se cetro, símbolo de soberania, de poder e de comando, tanto na ordem intelectual e espiritual, como na hierarquia social” (p. 124).

 

Este símbolo reforça a tese de que ele é efetivamente um líder e que está numa ótima situação social. O próprio fato de estar sendo retratado atesta isto, pois neste período, os retratos eram pagos por quem os encomendava e Van Dyck já era um pintor reconhecido, podendo estabelecer o preço que desejasse.

 

O lenço vermelho dá um toque de vivacidade por contrastar com os tons sóbrios da pintura. Porém, está ali justamente para lhe dar um pouco mais de pompa e mistério, pois denota que este cavaleiro é um nobre. A cor púrpura era utilizada exclusivamente nas vestimentas régias, por ser símbolo de poder supremo.

 

A cor vermelha tem uma simbologia vasta, pode significar juventude, vida e morte (sangue), segredos, e também, conforme Chevalier (2009), “Um vermelho suntuoso, mais maduro e ligeiramente violeta, torna-se o emblema do poder, que logo é observado para uso exclusivo. É o púrpura: essa variedade de vermelho era em Roma a cor dos generais, da nobreza, dos patrícios [...]” (p. 945).

 

Na tradição irlandesa se associa com “[...] uma simbólica guerreira, parece que o vermelho perpetuamente é o lugar da batalha – ou da dialética – entre céu e inferno [...]” (CHEVALIER, 2009, p. 945). Frequentemente nas religiões também é utilizado na representação de deuses e santos, com o intuito de expressar que eles detêm o poder absoluto.

 

A aura discreta, que nos atrai e faz querer desvendar o mistério deste comandante, se completa com o seu olhar. Em vários retratos que Van Dyck fez da aristocracia, os nobres estão olhando diretamente para o espectador, demonstrando sua superioridade. Este homem, no entanto, está olhando para a esquerda e levemente abaixo, nos dando a entender que observa alguém ou alguma coisa, talvez alguém com quem compartilhe um segredo, quem sabe o próprio pintor.

 

De acordo com as teorias neurolinguísticas, olhar para esquerda e para baixo, também está relacionado ao auditivo interno, ou seja, ter um diálogo consigo mesmo ou falar sobre si. (conforme PENTEADO, 2008). É justamente esta a ideia que o olhar deste comandante nos passa, que apesar de ser jovem e belo, ele tem algo a dizer sobre si, que ele tem seu valor, tem histórias e feitos de guerra para nos contar, esta é a imagem que ele criou para si e quer que o quadro expresse.

 

Chevalier (2009) nos diz “O olhar aparece como símbolo e instrumento de uma revelação. Mais ainda, é um reator e um revelador recíproco de quem olha e de quem é olhado. O olhar de outrem é um espelho que reflete duas almas”. (p. 653)

 Olhei e recuei [para o espelho]. O próprio vidro parecia conjurado com o resto do universo; não me estampou a figura nítida e inteira, mas vaga, esfumada, difusa, sombra de sombra. A realidade das leis físicas não permite negar que o espelho reproduziu-me textualmente, com os mesmos contornos e feições; assim devia ter sido. Mas tal não foi a minha sensação. – Jacobina (O espelho, Machado de Assis) 

Todos estes elementos bélicos com conotação mágica presentes na pintura, bem como este ar taciturno, servem para criar a figura do herói, ou seja, endeusar um homem. Não um homem comum, mas sim um nobre, uma pessoa de classe e bom gosto, que usa uma echarpe preta.

 

Atualmente, o significado atrelado à roupa e acessórios persiste, mesmo para os que não possuem dinheiro, as vestes acabam se tornando símbolo de poder e status social (ou fetiche): “- Tinha vinte e cinco anos, era pobre, e acabava de ser nomeado alferes da Guarda Nacional. Não imaginam o acontecimento que isto foi em nossa casa. Minha mãe ficou tão orgulhosa! tão contente! Chamava-me o seu alferes”. – Jacobina (ASSIS, 1994)

 

Não foram encontradas muitas fontes que falassem especificamente desta obra de Van Dyck, talvez pelo fato da tela não ter sido identificada pelo nome do comandante, ou seja, não representa nos dias atuais uma figura historicamente reconhecida, não identificamos sequer hipóteses de quem poderia ser este homem. Tanto que em algumas fontes o título encontrado para a obra é Retrato de Homem vestindo Armadura, com lenço vermelho, optamos por mencioná-lo de acordo com a identificação atual do museu, como Retrato do Comandante, o que se corrobora com a análise da simbologia.

 

Num antigo texto sobre as galerias de Dresden localizou-se este excerto de crítica:

 Me parece que o Retrato do Comandante vestindo Armadura, com seu lenço vermelho flamejante que contrasta com os tons frios metálicos é um exemplo perfeito deste artista no seu melhor momento, como outros na Europa. A postura fria e reservada, tão bem tipificada pela dura e confiável armadura, com traços de vermelho, sugerindo entusiasmo e coragem, fazem desta imagem do nobre tanto uma emblemática nota de guerra quanto um soberbo retrato. (ADDISON, 1906, p. 282, tradução nossa) 

A palavra retrato deriva do latim retrahere que significa copiar, porém não se limita a isso. O retrato é uma imagem (representação) de um indivíduo através de desenho, pintura, fotografia, escultura entre outros meios, que a partir da fisionomia ou contexto busca denotar a personalidade de uma pessoa (sua essência).

 

Desta forma, retratar as pessoas com os atributos de sua profissão, com símbolos de status social ou poder é relativamente comum, pois geralmente a pessoa retratada deseja que a pintura esteja de acordo com a imagem que faz de si, ainda que esta não seja a imagem que o pintor faz dela. Portanto, o retrato é uma imagem negociada, não é exatamente o que se reflete no espelho, pois o pintor também inclui nela um pouco de si, seu estilo e, principalmente, sua forma de perceber o outro: o seu olhar.

 

Sobre o gênero do retrato, o historiador da arte Giulio Carlo Argan (2004, p. 148) afirma que ele é importante porque a pintura histórica é considerada elevada na arte e “[...] o retrato é a imagem do protagonista, do herói de uma história imaginária. Mas isso não basta: o retrato implica de algum modo um juízo, mesmo que frequentemente o juízo seja um elogio oratório ou um cumprimento galante”. Segue afirmando que cada um deseja saber como é, principalmente aos olhos dos outros e por isso “O artista é um intérprete e um árbitro, de quem busca e se solicita o testemunho.”

 

Especificamente sobre Van Dyck, Argan (2004, p. 148) corrobora a sua importância no gênero por criar uma espécie de retratística oficial, de origem vêneta, mas com “montagem de ingredientes, absolutamente novo”.

 A vestimenta é objeto de interesse pictórico não só pelo esplendor das sedas, pelo reflexo coruscante das armaduras e dos colares, mas também por seu estilo, seu caráter social: ela é a marca de uma classe, de uma dignidade não apenas exterior. Mas não deve ter nada de convencional ou ritual; o objetivo é demonstrar que a pessoa traz “naturalmente” os sinais da própria situação no mundo, e que esta não sufoca a sensibilidade ou o sentimento. (ARGAN, 2004, p. 148, grifo nosso) 

Argan (2004) complementa afirmando que os rostos não são descritivos, mas demonstram uma atitude benévola em relação ao mundo; bem como o ambiente é apenas um halo ou aura, cujos elementos funcionam como atributos e que “[...] talvez a maior novidade de Van Dyck tenha sido descobrir que a personagem também é uma pessoa, que o prestígio ou a autoridade não excluem, mas, ao contrário, favorecem a relação de simpatia, a comunicação humana” (p. 149).

 

Van Dyck foi acusado de bajular os seus retratados e de usar técnicas (inclusive alterar proporções corpóreas) para dar-lhes mais beleza e altivez do que realmente teriam. O historiador da arte Ernst Gombrich (2009, p. 405) prefere afirmar que “Não admira que um pintor capaz de enfatizar essas qualidades em seus retratos com tal perfeição fosse avidamente solicitado pela sociedade”.

 Se lhes disser que o entusiasmo da tia Marcolina [pelo posto de alferes] chegou ao ponto de mandar pôr no meu quarto um grande espelho, obra rica e magnífica, que destoava do resto da casa, cuja mobília era modesta e simples... [...] O certo é que todas essas coisas, carinhos, atenções, obséquios, fizeram em mim uma transformação, que o natural sentimento da mocidade ajudou e completou. – Jacobina (O espelho, Machado de Assis) 

Como vemos em seus inúmeros retratos, o pintor vai além da inserção de signos para identificar os atributos do seu personagem, ele faz isso através da expressão corporal e facial, pois em muitos retratos os nobres aparecem despidos de seu traje oficial, mas não da sua “alma externa”, como afirma Jacobina no conto “A única parte do cidadão que ficou comigo foi aquela que entendia com o exercício da patente; a outra dispersou-se no ar e no passado”.

 O retrato de Carlos I, que acaba de desmontar do cavalo durante uma caçada, mostrou o monarca Stuart como teria desejado viver na história: uma figura de impecável elegância, inconteste autoridade e elevada cultura, o patrono das artes e defensor do direito divino dos reis, um homem que não precisa dos acessórios externos do poder para realçar sua dignidade natural. (GOMBRICH, 2009, p.405) 

Antoon Van Dyck (1599-1641)

Carlos I, da Inglaterra, c. 1635

Óleo sobre tela, 266 cm x 207 cm

Museè du Louvre, França

Existem outras obras representativas da abordagem emblemática com um leve toque de humanidade (sem perder a nobreza), esta foi uma característica cunhada por Van Dyck e que foi se desenvolvendo ao longo do tempo, culminado com a ousadia de nosso contemporâneo Bob Wilson (1941) que desconstrói completamente os cânones (ou os homenageia?) nos seus vídeorretratos.

 

Bob Wilson (2010) considera o vídeorretrato nas três formas que os artistas usam para construir o espaço: “Se eu coloco minha mão na frente do meu rosto, posso dizer que é um retrato. Se vejo minha mão a distância, posso dizer que é parte da natureza-morta, e se a vejo do outro lado da rua, posso dizer que é parte da paisagem”. Na própria fluidez da sua definição observamos o marco da vanguarda e de uma arte que trabalha no terreno conceitual: “Na construção destes espaços, vemos uma imagem que pode ser pensada como um retrato” [grifo nosso].

 

A preocupação com a qualidade da imagem faz com que o custo de cada clipe seja altíssimo, pois são utilizadas câmeras especiais para alcançar as cores desejadas e este efeito hiper-realista. O suporte deixa de ser a tela que será emoldurada, portanto, dá também uma maior liberdade, possibilita a inserção do movimento e do som para auxiliar na representação. Sobre seus trabalhos, Bob Wilson comenta numa entrevista:

 "Tem a ver com ouvir o silêncio", afirma Wilson, que importa dos palcos essa estratégia. "Meu trabalho no teatro sempre começa muito silencioso, só com imagens. Parto sempre do imobilismo, não tratando de idéias, mas de uma experiência momentânea, mais próxima do comportamento animal. Esses retratos são como olhar um urso selvagem e não se mexer, porque senão ele avança." (NEVES e MARTI, 2008) 

Robert Wilson (1941)

Brad Pitt - Ator, 2004

Vídeorretrato

O clipe começa com o silêncio e a imagem do ator Brad Pitt, imóvel (percebemos somente movimentos mínimos de sua respiração e o piscar dos olhos), apenas de cuecas e meias, segurando uma arma, tudo num tom de azul estonteante. Então começa a chover, surge a voz e o texto de Christopher Knowles, acompanhado alguns instantes após pela música de Michael Galasso, a chuva vai cessando até parar, a poesia e a música permanecem até o momento em que a arma é erguida lentamente e direcionada ao espectador, quando estes sons cessam e o que fica é o barulho do disparo da arma, seguido por mais silêncio, até que ele retorna à posição inicial calmamente e o vídeo recomeça, num loop infinito.

 - Lembrou-me vestir a farda de alferes. Vesti-a, aprontei-me de todo; e, como estava defronte do espelho, levantei os olhos, e... não lhes digo nada; o vidro reproduziu então a figura integral; nenhuma linha de menos, nenhum contorno diverso; era eu mesmo, o alferes, que achava, enfim, a alma exterior. – Jacobina (O espelho, Machado de Assis) 

Ocorre que Robert Wilson lembrou-se de despir a farda, retirar a armadura de proteção, expor um ator endeusado pela mídia à sua condição mais vulnerável. Brad Pitt não foi mostrado apenas como homem, foi retratado de cueca samba-canção. Estar de cuecas na calçada já denota uma intimidade normalmente indesejada, mas as meias dão um toque de rigor à exposição exacerbada, denotando um momento em que foi flagrado desprevenido.

 

Não bastasse isso, veio a chuva e encharcou completamente o homem, anunciando o poder da mãe natureza, aparentemente ele tinha a sua arma, ainda podia se defender, porém, apesar de nos seguir com seus olhos sérios e mirar como se fôssemos alvo, tudo o que sai da sua pistola é água, este é o ápice do movimento e também o ápice da superexposição: ele é só um homem indefeso.

 

A desconstrução de todos estes elementos heróicos se completa com a poesia nada épica adaptada por Christopher Knowles, na qual a ameaça empreendida pelo homem parece uma cantiga infantil para brincadeiras de esconde-esconde, entoada por uma voz ritmada mecanicamente e ao som de uma música similar a um realejo. No entanto, esta canção é romântica e fala de um homem que está a procura de uma mulher, ou seja, o ataque não é pela guerra, é por amor.

 

Para os atores a construção da sua imagem e manutenção pela mídia é indispensável, no entanto, eles querem se mostrar apenas como profissionais, com sua imagem pública de atores e detestam quando são flagrados como pessoas comuns, como é o caso dos Paparazzi que invadem a privacidade deles. O que significa expor eles de uma forma a qual não querem ser vistos (a imagem não corresponde à imagem que fazem de si), quando o trabalho de Bob Wilson saiu na capa da Vanity Fair o ator Brad Pitt reclamou, dizendo que não sabia que o trabalho poderia ser publicado quando posou.

 

Provavelmente a intenção de Bob Wilson não era a de expor o ator em si, mas desconstruir esta imagem de heróis para contestar nossas idolatrias atuais, porém, como ele mesmo afirma “A interpretação é para os outros. Fixar um significado a um trabalho como este limita sua poesia e a possibilidade de outras ideias. Eles são pessoais, expressões poéticas de personalidades diferentes. Um homem da rua, um animal, uma criança, super stars, deuses de nosso tempo”. (WILSON, 2010)

 

Estas são apenas algumas reflexões acerca do gênero retrato, vislumbrando uma obra do período Barroco e uma da atual vanguarda e, ao contrário do nosso amigo Jacobina, estamos sempre dispostos a trocar ideias, nosso intuito é fazer com que da próxima vez que você olhe um retrato, seja numa galeria ou num álbum de família, sua percepção sobre ele seja diferenciada do que era antes.

 Está claro que o ofício dessa segunda alma é transmitir a vida, como a primeira; as duas completam o homem, que é, metafisicamente falando, uma laranja. Quem perde uma das metades, perde naturalmente metade da existência; e casos há, não raros, em que a perda da alma exterior implica a da existência inteira. (ASSIS, 1994) – Jacobina (O espelho, Machado de Assis) 

REFERÊNCIAS

 

ADDISON, Julia de Wolf.  The Art of the Dresden Gallery: notes and observations upon the old and modern masters and paintings in the Royal Collection.  Boston: Colonial Press, 1906.  Disponível em: < http://books.google.com.br>. Acesso em: 30 nov. 2010.

 

ARGAN, Giulio Carlo.  Imagem e persuasão: Ensaios sobre o barroco.  São Paulo: Companhia das Letras, 2004.

 

ASSIS, Machado de.  O Espelho. In: Obra Completa.  Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994. v. II. Disponível em: <http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/bv000240.pdf>. Acesso em: 29 nov. 2010.

 

BALLONE, G. J.  Carl Gustav Jung.  In: PsiqWeb. 2005. Disponível em: <http://www.psiqweb.med.br/>. Acesso em: 02 dez. 2010.

 

CHEVALIER, Jean.  Dicionário de Símbolos: mitos, sonhos, costumes, gestos, formas, figuras, cores, números.  23 ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 2009.

 

CHILVERS, Ian.  Dicionário Oxford de Arte.  São Paulo: Martins Fontes, 2007.

 

GOMBRICH, Ernst H.  A História da Arte.  Rio de Janeiro: LTC, 2009.

 

NEVES, Lucas. MARTI, Silas.  Imagens de Brad Pitt e Winona Ryder estão em mostra em SP.  Folha de São Paulo. São Paulo, nov. 2008. Disponível em: <http://www1.folha.uol.com.br/folha/ilustrada/ult90u466359.shtml>. Acesso em: 03 dez. 2010.

 

PENTEADO, Nelly Beatriz M. P.  Pista de acesso. Sua Mente, 2008. Disponível em: <http://site.suamente.com.br/pistas-de-acesso/>. Acesso em: 03 dez. 2010.

 

WILSON, Robert.  A natureza morta é vida real. In: Robert Wilson Vídeo Portraits.  Porto Alegre: Santander Cultural, 2010. Folder da Exposição.