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Les fauves hors de la cage

Quando estão em seu habitat natural, as feras costumam ficar nuas, se banhar muito, dançar e reclinar-se na relva verde para entrar em contato com suas mais profundas cores primárias. Não sofrem duras críticas do público e nem precisam se encaixar nos traços dos cânones das obras que vendem. Podem seguir seus instintos selvagens e ir contra as correntes artísticas vigentes, podem buscar o novo e regozijar-se do prazer arcádico de viver em contato com a natureza.

 

O fauvismo não chegou a ser considerado uma escola, porque seu período efetivo de duração foi pequeno e a adesão por parte dos artistas não foi maciça, embora suas influências sejam expressivas e alguns tenham perpetuado seu estilo. Na verdade, esta corrente decorreu do encontro das ideias fecundadas por Matisse há algum tempo com as ideias de Derain e Vlaminck (que eram vizinhos), embora este último tenda a se divulgar “pai” do movimento. É válido ressaltar que houveram muitos outros fauvistas de qualidade e que no entanto não se tornaram tão conhecidos, como por exemplo, Kees Van Dongen, Georges Braque, Albert Marquet e Henri Manguin.

 

É importante ressaltar a trajetória de alguns deles, entre os quais Matisse, que iniciaram seus estudos com Moreau, no qual tiveram uma visão que ia além do academicismo francês, conforme Whitfield (1994, p. 12) "Esse ateliê desempenhou grande papel na formação de suas carreiras, [...] Moreau encorajava ativamente os seus estudantes a questionarem a própria obra do mestre, até a reagirem contra ela e, sobretudo, a exercerem sua independência pessoal."

 

Com este espírito de autonomia, criaram suas obras que se caracterizam pela busca do poder da cor, pelos seus contrastes e dissonâncias estridentes, estas cores eram retiradas da paleta do artista e não se preocupavam com a realidade, buscavam um efeito emocional e decorativo, além de compor a tela. As formas da natureza foram reduzidas a padrões planos, permitindo desenhar um rosto ou objeto a partir de uns poucos elementos muito simples.

Agora o problema era o contrário: ao dar prioridade ao padrão decorativo, eles sacrificaram a antiga prática de modelar todas as formas em luz e sombra. É verdade que esse sacrifício podia também ser experimentado como uma liberação. Finalmente a beleza e pureza de cores luminosas que um dia contribuíram para a glória dos vitrais medievais e das miniaturas não eram mais obscurecidas por sombras. (GOMBRICH, 2009, p. 571)

Matisse também escreveu sobre arte e com relação a sua expressividade afirma que "não reside na paixão que aparecerá num rosto ou que se afirmará por um movimento violento. Está em toda disposição do quadro: o lugar que ocupam os corpos, os vazios à volta deles, as proporções, tudo isto desempenha o seu papel" e segue falando sobre composição que é "a arte de arranjar de maneira decorativa os diversos elementos que o pintor dispõe para exprimir os seus sentimentos."

 

A produção mais expressiva do fauvismo inclui paisagens, retratos e sobretudo nus, quase todos os artistas pintam nus, com presença indispensável de banhistas (que merecem um ensaio só para si), e voltam-se para uma simplificação das formas humanas (muito usada por Picasso depois) e por um corpo que se entrega aos olhos do expectador geralmente de forma pura e natural (à exceção de Van Dongen que é mais provocativo), indo de encontro ao idílico preconizado por eles.

 

A mais impressionante coleção de nus é a de Matisse, pois apresenta diversas visões do corpo feminino (aparecem poucos masculinos ou andróginos), consideradas por alguns eróticas (não se comparadas a Van Dongen) e por outros grotescas (não se comparadas a Michelangelo), mas que percebo agora como naturalistas ou puramente decorativas, talvez porque seja difícil desvencilhar-me de um olhar contemporâneo.

 

Ao falarmos de Matisse, seu trabalho, seus escritos e suas influências, estamos também falando do fauvismo como um todo, visto que ele é muito arraigado e representativo, sendo considerado pelos críticos da época como "le fauve de les fauves". Embora alguns autores atuais, como Micheli (2004) tendam a considerar Vlaminck e Derain como únicos representantes autênticos do movimento, pois tem uma alma mais fauvista, por relacionarem seu forte temperamento (liberação dos instintos) com a explosão de cores a fim de expressar o sentimento, mais coerentes com o movimento, considerando Matisse e os outros com uma disposição mais naturalista, também por serem mais metódicos.

 

Matisse tinha conhecimento das obras de Nietzche, o que se aplica na sua busca por "equilíbrio, pureza e serenidade", Perry (1998, p. 49) acrescenta ainda Gide às leituras fauvistas:

Uma possível conexão literária pode ser encontrada nos escritos de André Gide e no culto do "naturismo". Les Nourritures terrestres de Gide, publicado em 1897, exalta uma abordagem direta e espontânea da vida e da sexualidade, um culte de la vie que se tornou a característica distintiva do movimento naturista. O conceito especificamente francês de "joie de vivre", a ideia de gozar livremente as sensações físicas e as expressões diretas, é associado com frequência ao naturismo e ao texto de Guide.

Há ainda uma ligação declarada com Baudelaire, posto que Matisse nomeia uma tela a partir de um poema dele, explana WHITFIELD (1994, p. 19) "Assim como Luxe, Calme et Volupté brotara dos escritos de Baudelaire, também Joie de Vivre depende do hedonismo tão frequentemente apontado em certos poetas simbolistas."

 

Além da ligação com a literatura do período, este movimento teve reconhecidamente influências de Cezanne, com seu olhar para as formas cilíndricas da natureza e de Van Gogh, com sua impetuosidade de traços. Micheli (2004, p. 64) discorre sobre a forte presença dos ensinamentos de Gauguin entre os fauves:

"Nós queremos", é sempre Matisse que fala, "alcançar o equilíbrio interior através da simplificação das ideias e das formas figurativas. Não parece estar ouvindo nestas palavras o eco daquelas outras de Gauguin: "O pintor plasma através da simplificação, através da síntese das impressões, que são submetidas a um conceito geral"? E quantas vezes Gauguin não falou do "mágico acordo" das cores?

Realmente a presença de Gauguin pode ser sentida na paleta de cores de Matisse e na escolha de temas que representam um "paraíso na terra" como na tela abaixo.

Henri Matisse (1869-1954)

Pastoral, 1905

Óleo sobre tela, 46 x 55 cm

Musee d'Art Moderne de la Ville de Paris, France

Whitfield (1994, p. 17) ao comentar sobre a obra Mulher com chapéu complementa ainda a relação entre estes pintores: "Matisse já tinha superado Gauguin e Van Gogh na intensidade da expressão, mas, à semelhança de Cezanne, faz suas cores agirem e reagirem umas às outras, embora o efeito seja mais exagerado."

 

Outra importante presença no surgimento do fauvismo é a de Signac, que dogmatizou a técnica pontilhista de Seurat, sobre a qual Matisse realizou uma interpretação bastante livre em seu quadro Luxe, Calme et Volupté sintetizando o que os pós-impressionistas tinham a oferecer, além de usar a cor subjetivamente, o desenho era o que mais espantava as pessoas. A tela foi considerada pelos pintores mais jovens como um manifesto: "Diante desse quadro, compreendi todos os novos princípios; o impressionismo perdeu para mim todo o encanto, ao contemplar esse milagre da imaginação produzido pelo desenho e pela cor", recordou Dufy. (Conforme WHITFIELD, 1994, p. 17)

Henri Matisse (1869-1954)

Luxuria, calma e volúpia, 1904-5

Óleo sobre tela, 99 x 118 cm

Musée d'Orsay, França

As formas dos nus estão drasticamente simplificadas, de modo que assumem uma função puramente decorativa; são percebidas mais como formas do que como corpos femininos. Toda tela parece questionar a tradição paisagística; tudo nela desempenha um papel mais decorativo do que descritivo. (WHITFIELD, 1994, p. 15)

O jogo entre a complementaridade das cores foi magnificamente demonstrado na tela Joie de Vivre, onde há uma exploração de brilho das cores da paleta, intencionalmente decorativa, por não possuir a menor verossimilhança com um cenário ou cena real, não deixa de ser encantadora.

Henri Matisse (1869-1954)

Alegria de viver, 1905
Óleo sobre tela, 171 x 234 cm

The Barnes Foundation, EUA

Nesta tela existem diversos grupos interessantes, tanto que alguns foram reelaborados individualmente pelo próprio Matisse, como é o caso da dança de roda ao fundo, que gerou inúmeras obras posteriores, entre as quais o quadro denominado Le Danse e que, curiosamente, continua inspirando designers, vide o logotipo das Olímpiadas de 2016 no Rio de Janeiro (ao lado).

Mas voltando nosso olhar para o nu, vemos aqui também uma síntese das distorções ou poses inóspitas, das cores chocantes usadas, de uma indefinição sexual (exceto pela presença dos seios nas figuras femininas), mas tudo isso me parece entrecortado por um certo pudor (a figura do primeiro plano está com um pano por cima das pernas entreabertas) e um toque arcádico na representação literal de um pastor tocando flauta para chamar suas ovelhinhas (à direita). No entanto, são plausíveis as opiniões dos estudiosos que vêem mesmo na escolha do tema e das formas simples um certo erotismo:

A interpretação de Matisse enfatiza uma falta de inibição; ao fundo, há figuras dançando espontaneamente [...], enquanto outros se abraçam e muitas das mulheres estão reclinadas em poses relaxadas e eróticas. Mas essa obra também tem raízes nos temas pastorais e arcádicos que eram populares entre os pintores simbolistas, que podem ser remontadas a Poussin, nos quais temas mitológicos acontecem em paisagens cuidadosamente compostas. (PERRY, 1998, p. 49)

 

É uma tela maravilhosamente controlada, em que cada linha, cada traço, cada espaço contribui para a expressão de calma e tranquilidade - nada há que seja supérfluo. O espírito de sensualidade lânguida é um equivalente perfeito da imaginação de Baudelaire, admiravelmente transmitido pelos rosa e verdes suaves e pelas flexíveis contorções dos casais que se abraçam. Tudo é o mais imponderável possível, e mesmo as árvores que balouçam ao fundo parecem tão transitórias quanto o estado de espírito que expressam. (WHITFIELD, p. 19)

Com traços mais próximos da escultura ou do entalhe é que se apresenta a opulenta mulher azul, explicitando mais algumas diferenças na técnica e cores usadas por Matisse ao longo da sua carreira, provavelmente em função do seu amadurecimento e de suas viagens que permitiram contato com outras realidades (novos temas) e também com outros artistas (novas técnicas).

Henri Matisse (1869-1954)

Nu bleu. Souvenir de Biskra, 1907

Óleo sobre tela, 92 x 140 cm

Baltimore Museum of Art, EUA

Perry (1998, p. 58) informa que esta obra de tema norte-africano inspira-se no oásis de Biskra (Argélia), mesmo não sendo uma reprodução, contém inúmeros elementos (palmeiras, grama verde) deste belíssimo local que servia de porto aos viajantes no deserto, a escolha pelo tema colonial é explícita, pois ele sugere que seja um local de "reabastecimento", neste caso a mulher serviria como símbolo deste oásis "primitivo". As representações de mulheres em poses de odaliscas eram comuns na época, mas sobre Nu blue, embora a considere como voluptuosa, o autor afirma que:

Essas distorções estão relacionadas indiretamente às formas de "objetos tribais", e alguns detalhes, como os seios bulbosos e a forma exagerada das coxas, são características comuns das estatuetas africanas. A mulher nua assume também uma pose impossível, uma forma dramática de contraposto, que confunde ainda mais as conotações sexuais convencionais do tema. (PERRY, 1998, p. 59)

Como não é possível esgotar toda nudez de Matisse, voltaremos nosso olhar quase 50 anos adiante, não perdendo de vista que este pintor tem a característica de sempre retomar seus trabalhos e reinterpretar-se, por isso obras de anos longínquos podem ser próximas estilisticamente. Seu âmago continuou fauvista até o fim da sua vida, onde serena e alegremente (contrariando as leis da natureza rabugenta de um idoso doente), reinventou-se através dos recortes efetuados diretamente na cor (papel colorido), culminando sua ideia inicial, sem faltar é claro, os seus nus.

Os pressupostos do movimento mantiveram-se vivos em seu trabalho, durante toda sua carreira. Penso que a razão está justamente nesse recuo intelectual, nesse casamento de emoção e razão, instinto e rigor. Tais conjunções de contrários poderiam explicar muito da condição peculiar de Matisse. O artista que busca, acima de tudo, a expressão é também um artista de controle acurado. (PASTA, 2009, p. 63)

Henri Matisse (1869-1954)

Nu azul II, 1952

Não restam dúvidas de que há sim uma certa sensualidade, um toque de erotismo nas obras de Matisse, quer se considere o tema ou as formas, porém, os traços com que desenha suas mulheres, ora esguios e delicados, ora precisos e fortes, lhes conferem uma ambiguidade que fica entre o ingênuo e o instintivo.

 

 

 

REFERÊNCIAS

 

 

CHILVERS, Ian.  Dicionário Oxford de Arte.  São Paulo: Martins Fontes, 2007.

 

GOMBRICH, Ernst H.  A História da Arte.  Rio de Janeiro: LTC, 2009.

 

MICHELI, Mario de.  A situação francesa.  In: _____.  As vanguardas artísticas.  São Paulo: Martins Fontes, 2004. p. 62-71.

 

MULLER, Joseph Emile.  O Fauvismo.  São Paulo: Verbo, 1974.

 

PASTA, Paulo.  Volúpia e Ordenação.  In: SALZSTEIN, Sônia.  Matisse: imaginação, erotismo, visão decorativa.  São Paulo: Cosacnaify, 2009.

 

PERRY, Gill.  O decorativo e o "culte de la vie": Matisse e o fauvismo.  In: HARRISON et al.  Primitivismo, cubismo, abstração. Começo do século XX.  São Paulo: Cosac & Naify, 1998. p. 46-62.

 

WHITFIELD, Sarah.  Fauvismo.  In: STANGOS, Nikos (Org.)  Conceitos da arte moderna.  Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1994. p. 11-23.a