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Tériade

Stratis Eleftheriadis, mais conhecido como Tériade, nasceu na cidade de Mitilene, capital da ilha de Lesbos, pertencente à Grécia, em maio de 1897. Em 1915, aos dezoito anos, passou a residir em Paris, para estudar Direito. No entanto, seu interesse por arte acabou levando-o a se estabelecer como crítico e um dos principais editores de livros ilustrados de arte do século XX, trabalhando com muitos dos maiores nomes das vanguardas modernas. Produziu também diversas revistas de arte, entre as quais se destacam a Minotaure e a Verve. Foi ainda um colecionador de arte e parte de sua coleção integra hoje o Museu-Biblioteca de Stratis Eleftheriadis - Tériade, inaugurado em 1979, em Lesbos. Faleceu em Paris, em outubro de 1983.

 

Tériade atuou em uma época de afirmação e consolidação das assim chamadas vanguardas modernas. Transitando com naturalidade neste circuito, ele conseguiu o respeito e amizade de muitos artistas, criando parcerias que possibilitaram a realização de obras consideradas hoje como marcos na história da arte moderna. Da mesma forma, estabeleceu uma rede de contatos com outros editores atuantes na área, como por exemplo, Christian Zervos, Albert Skira, entre outros.

Stratis Eleftheriadis, mais conhecido como Tériade.

Destes contatos, pode-se destacar a parceria com Albert Skira, na produção da revista Minotaure, fundada em 1933, na qual atuou como diretor artístico. A proposta de Skira era produzir uma revista luxuosa, com ilustrações coloridas, orientada pelas ideias surrealistas. Com colaboração de André Breton, bem como de outros importantes nomes do surrealismo, a revista abrangia diversas áreas de interesse: artes visuais, poesia, filosofia, arqueologia, psicanálise, cinema e outras.

Revista Minotaure nº 1, 1933 (capa) - Pablo Picasso

Revista Minotaure nº 5, 1934 (capa) - Francisco Borés

Revista Minotaure nº 8, 1936 (capa) - Salvador Dalí

Revista Minotaure nº 11, 1938 (capa) - Max Ernst

Revista Minotaure nº 2, 1933 (capa) - Gaston-Lois Roux

Revista Minotaure nº 6, 1934 (capa) - Marcel Duchamp

Revista Minotaure nº 9, 1936 (capa) - Henri Matisse

Revista Minotaure nº 12-13, 1939 (capa) - André Masson

Revista Minotaure nº 3-4, 1933 (capa) - André Derain

Revista Minotaure nº 7, 1935 (capa) - Juan Miró

Revista Minotaure nº 10, 1937 (capa) - René Magritte

Revista Minotaure nº 12-13, 1939 (frontispício) - Diego Rivera

As capas traziam ilustrações coloridas de nomes considerados hoje fundamentais não apenas para o surrealismo, mas para a arte moderna em geral (ver imagens acima). A capa do primeiro fascículo, de 1933, trazia ilustração de Pablo Picasso. Além dele, também colaboraram com ilustrações para capas da Minotaure os seguintes artistas: Gaston-Lois Roux (n. 2, 1933), André Derain (n. 03-04, 1933), Francisco Borés (n. 05, 1934), Marcel Duchamp (n. 06, 1934), Juan Miró (n. 07, 1935), Salvador Dalí (n. 08, 1936), Henri Matisse (n. 09, 1936), René Magritte (n. 10, 1937), Max Ernst (n. 11, 1938), André Masson (n. 12-13, 1939) e Diego Rivera (n. 12-13, 1939, frontispício). A Minotaure deixou de ser publicada em 1939, após 13 números. 

With sensational covers, high-quality photography, and the frequent use of color, Minotaure brought such artists' work to life like no other magazine had. It was Minotaure that first reproduced the sculpture of Picasso, as well as some of the most provocative of Dalí’s images. [Com capas sensacionais, fotografias de alta qualidade, e o uso freqüente da cor, Minotaure trouxe o trabalho destes artistas à vida como nenhuma outra revista fez. Minotaure foi a primeira a reproduzir a escultura de Picasso, bem como algumas das mais provocativas imagens de Dalí.] (HOFMANN, 2001, tradução nossa).

Outra publicação periódica de destaque editada por Tériade foi a revista Verve, chamada de “a mais bela revista do mundo” por um de seus apoiadores. Publicada entre 1937 e 1960, a Verve foi uma revista de design arrojado e atraente, tornando-se conhecida pela qualidade de suas ilustrações coloridas e abrangendo uma vasta gama de assuntos artísticos e literários. Tériade, então com cerca de 40 anos de idade, contou com o apoio financeiro de David A. Smart, editor da Esquire e da Apparel Arts.

Como a Minotaure, a Verve também contou com a participação de importantes nomes da arte moderna, como Marc Chagall, Pierre Bonard, Henri Matisse, Pablo Picasso e Georges Braque. Publicou também fotografias de Man Ray, Dora Maar, Matthew Brady, George Brassai, Henri Cartier-Bresson, Erwin Blumenfeld e artigos de nomes como Ernest Hemingway, James Joyce, André Malraux, Jean-Paul Sartre, André Gide, Albert Camus, entre outros. Era publicada em francês e inglês, no formato in folio, com 27 x 36 cm. Teve 38 números, publicados de forma irregular.

Revista Verve nº 1, 1937 (capa) - Henri Matisse

Revista Verve nº 2, 1938 (capa) - Georges Braque

Revista Verve nº 7, 1940 (capa) - A edição traz reproduções do manuscrito iluminado do século XV, As mui ricas horas do duque de Berry.

O sucesso da Verve, bem como seus contatos com artistas e escritores, permitiu a Tériade se lançar na edição de livros ilustrados de arte, conhecidos como os Grands Livres. Tériade editou ao todo 26 livros ilustrados de arte, sendo Jazz, de Henri Matisse (1947), o mais famoso deles. A historiadora da arte Riva Castleman (1994, p. 31), sugere que talvez as dificuldades advindas da Segunda Guerra Mundial (1939-1945) tenham sido significativas na ideia de que os livros poderiam ter textos escritos à mão no lugar da tipografia. Este padrão foi utilizado em Jazz, que apresentava texto elaborado e escrito à mão por Matisse, bem como ilustrações feitas a partir de colagens de papel colorido, também criadas pelo artista. Outros livros editados por Tériade também apresentam textos escritos à mão, como Le chant des morts (1948), de Pierre Reverdy, ilustrado por Picasso (imagem abaixo) e Cirque (1950), escrito e ilustrado por Fernand Léger.

Le Chant des morts. Texto: Pierre Reverdy. Ilustrações: Pablo Picasso. Paris, Tériade Editeur, 1948. 1ª edição. 136 páginas, 42 x 32 cm, 123 litografias executadas entre 1946 e 1948.

O trabalho de elaboração de Jazz serve de exemplo da relação próxima que Tériade mantinha com os artistas, incentivando-os e criando condições para parcerias que resultaram em obras marcantes e de grande beleza. Já tendo trabalhado com Matisse em outras ocasiões, Tériade sugeriu ao artista, em 1941, a publicação de um livro colorido (GODLEWSKI, 1990). Tendo recém recebido diagnóstico de câncer e sofrido uma cirurgia, Matisse tinha passado a utilizar uma cadeira de rodas para poder movimentar-se e começava suas experiências com recortes em papel colorido. Incentivado por Tériade, Matisse produziu uma série de composições com recortes, tendo ainda o editor sugerido que o papel utilizado fosse colorido por seus assistentes com tinta guache, que tinha maior correspondência cromática com tintas de impressoras. “The care with which Jazz was printed is legendary. [O cuidado com que Jazz foi impresso é legendário].” (GODLEWSKI, 1990, tradução nossa). O resultado deste trabalho de colaboração próxima entre artista e editor foram reproduções que se aproximaram bastante da qualidade dos recortes originais de Matisse, gerando uma obra de efeito espetacular, recebida com entusiasmo entre apreciadores das artes e de livros ilustrados de artistas.

Jazz. Texto e ilustrações: Henri Matisse. Paris, Tériade Editeur, 1948. 1ª edição. 164 páginas, 42 x 32,2 cm, 20 impressões a cores a partir de recortes de Matisse, executados entre 1946 e 1947.

Jazz. Texto e ilustrações: Henri Matisse. Paris, Tériade Editeur, 1948. 1ª edição. 164 páginas, 42 x 32,2 cm, 20 impressões a cores a partir de recortes de Matisse, executados entre 1946 e 1947.

Durante todas as décadas de 1940, 1950 e 1960, bem como parte da década de 1970, Tériade manteve a publicação de livros ilustrados por artistas. Além de Jazz, trabalhou com Matisse em Lettres Portugaises (1946), de Mariana Alcaforado, Poèmes (1950), de Charles d’Orleans, e Une fete en Cimmerie (1963) de Georges Duthuit, publicado nove anos após a morte do artista. Com Léger, publicou La Ville (1958), além do já citado Cirque (1950). Trabalhou bastante com Chagall, na edição dos seguintes títulos: Fables (1952), de Jean de la Fontaine, Bible (1956), Daphnis & Chloé (1961) e Cirque (1967), do próprio Chagall. Com Miró, publicou Ubu Roi (1966), de Alfred Jarry, Ubu aux Baléares (1971) e L’ Enfance d’ Ubu (1975), ambos do próprio Miró. Trabalhou ainda com os seguintes artistas na publicação de livros ilustrados: Alberto Giacometti, André Beaudin, George Rouault, Henri Laurens, Jacques Villon, Juan Gris, Le Corbusier, Marcel Gromaire e Pierre Bonnard. A relação completa dos Grands Livres publicados por Tériade, pode ser consultada na página do Museu-Biblioteca de Stratis Eleftheriadis - Tériade.

Cirque. Texto e ilustrações: Fernand Léger. Paris, Tériade Editeur, 1950. 1ª edição. 128 páginas, 42 x 32 cm, 83 litografias (49 p/b e 34 color.)

Poèmes. Texto: Charles d'Orléans. Manuscrito e ilustrações: Henri Matisse. Paris, Tériade Editeur, 1950. 1ª edição. 100 litografias de Mourlot com a supervisão de  Matisse.

Em paralelo com suas atividades de editor, Tériade foi também um colecionador de arte, legando parte de sua coleção ao Museu-Biblioteca de Stratis Eleftheriadis - Tériade, fundado em 1979, em Lesbos. Falecendo em 1983, deixou como legado uma série de publicações que se tornaram referências não apenas no âmbito editorial de arte, mas para a história da arte moderna em geral. Colocando-se como um colaborador empenhado na obtenção do melhor resultado possível, Tériade lançou publicações que hoje se destacam pela qualidade editorial, reunindo nomes importantes das artes e das letras em geral. Esse resultado, segundo suas próprias palavras, reproduzidas no site do Museu-Biblioteca que leva seu nome, não teria sido possível sem uma relação de respeito e amizade mantida com os artistas e colaboradores:

Whether I have accomplished the approach of the poets and painters in these books, this is bound on the fact that these people confronted me primarily as a friend, as their co-artist, that understood them. Without friendship I would have accomplished nothing. Don’t ask for further explanation. There are neither heroisms nor mysteries. [Se eu realizei uma aproximação de poetas e pintores nestes livros, isso se deve ao fato de que essas pessoas me encaravam primeiramente como um amigo, como seu co-artista, que as entendia. Sem a amizade eu não teria realizado nada. Não peça por outras explicações. Não há nem heroísmos, nem mistérios.] (TÉRIADE apud THE MUSEUM-LIBRARY OF STRATIS ELEFTHERIADIS - TERIADE, tradução nossa).

REFERÊNCIAS

 

ADAMOWICZ, Elza. The livre d'artiste in twentieth-century France. French Studies, v. 63, n. 2, p. 189–198, apr. 2009. Disponível em:  <http://fs.oxfordjournals.org/content/63/2/189.full>. Acesso em: 01 maio 2012. 

 

CASTLEMAN, Riva. A century of artists books. New York: The Museum of Modern Art, 1994.

 

GODLEWSKI, Susan Glover. Livres d'artiste: Henri Matisse, Jazz. School Arts, v. 89, n. 8, p. 39-42, apr. 1990.

 

HOFMANN, Irene E. Documents of dada and surrealism: dada and surrealist journals in the Mary Reynolds Collection. In: THE ART INSTITUTE OF CHICAGO. [Site oficial]. Chicago: The Art Institute of Chicago, 2001. Disponível em: < http://www.artic.edu/reynolds/essays/hofmann.php>. Acesso em: 06 maio 2012.

 

THE MUSEUM-LIBRARY OF STRATIS ELEFTHERIADIS - TERIADE. [Site oficial]. Apresenta o trabalho de publicação do editor Stratis Eleftheriadis - Tériade, além de gravuras de pintores do século XX e pinturas de reconhecidos artistas gregos. Disponível em: <www.museumteriade.gr/en/index.asp>. Acesso em: 06 maio 2012.

 

 

COMO CITAR ESSE TEXTO

 

SILVA, Marcelo de Souza. Tériade. HACER - História da Arte e da Cultura: Estudos e Reflexões, Porto Alegre, 2016. Disponível em: <http://www.hacer.com.br/#!teriade/h15j2>. Acesso em: