A mulher adúltera

Introdução

 

A narrativa da mulher adúltera é uma passagem bíblica presente no Novo Testamento, Evangelho de São João, capítulo 8, versículos 1 ao 11. Aparece somente neste Evangelho e falta em outros manuscritos antigos. Trata-se de uma passagem de forte conteúdo simbólico e moral, que foi inspiração para inúmeras representações visuais ao longo da história da arte, conforme veremos adiante.


Passo, de imediato, à transcrição da passagem:
 

1 Jesus foi para o Monte das Oliveiras. 2 De madrugada, apareceu outra vez no Templo, e todo povo ia ter com Ele. Sentou-Se, então, e pôs-Se a instrui-los. 3 Entretanto, os escribas e os fariseus trouxeram-Lhe uma mulher apanhada em adultério e, depois de a colocarem no meio, 4 disseram-Lhe: “Mestre, esta mulher foi apanhada em flagrante adultério. 5 Ora Moisés, na Lei, mandou-nos apedrejar tais mulheres. E tu, que dizes?” 6 Isto diziam eles para Lhe armarem uma cilada, a fim de terem de que O acusar. Mas Jesus, inclinando-Se, pôs-se a escrever no chão com o dedo. 7 Como persistissem em interroga-Lo, ergueu-Se e disse-lhes: “Quem de vós estiver sem pecado seja o primeiro a lançar-lhe uma pedra”! 8 E, inclinando-Se novamente, recomeçou a escrever no chão. 9 Eles, porém, quando isto ouviram foram saindo um a um, a começar pelos mais velhos, e ficou só Jesus com a mulher, que continuava ali no meio. 10 Jesus ergueu-Se e disse-lhe: “Mulher, onde estão eles? Ninguém te condenou”? 11 Ela respondeu: “Ninguém, Senhor.” “Nem Eu te condeno, volveu-lhe Jesus. Vai e doravante não tornes a pecar”.  

A Cilada

 

Inicialmente, cabe talvez esclarecer qual a cilada a que se refere o texto bíblico. Inimigos de Jesus, os escribas e fariseus imaginaram, com esta manobra, colocá-lo diante de um dilema insolúvel. Ao trazer uma mulher pega em flagrante adultério e propor tal questionamento diante de seu povo, Jesus teria somente duas opções: se autorizasse o apedrejamento da mulher, ele estaria indo contra a lei de Roma, que governava Jerusalém e reservava a si a aplicação de qualquer pena capital; se desautorizasse o apedrejamento, estaria se colocando contra a lei de Moisés, a mesma lei que ele próprio afirmava não ter vindo para destruir. Qualquer resposta, portanto, seria prejudicial a Jesus e uma vitória para seus inimigos. O estratagema, entretanto, fracassa, pois Jesus encontra uma solução que não desafia nem a lei de Roma como tampouco a lei de Moisés.


Penso que aqui cabe ainda mais um comentário. A lei de Moisés, a que os escribas e fariseus se referem, consta no texto bíblico no Antigo Testamento, no livro de Levítico, capítulo 20, versículo 10 e diz o seguinte, em tradução moderna:

 

“Se um homem cometer adultério com a mulher de outro homem, com a mulher de seu próximo, o homem e a mulher adúltera serão punidos com a morte”.

 

A farsa e a má-fé da situação levada a Jesus ficam mais evidentes ainda se confrontadas com o texto da lei de Moisés, escrita tendo o homem como sujeito referencial e não a mulher, como seria de se esperar em uma sociedade patriarcal arcaica. Ao homem (sujeito da lei) não seria permitido cometer adultério com a mulher de outro homem ou com a mulher de seu próximo e, se o fizesse, ambos seriam punidos. Entretanto, na passagem do Evangelho de São João, somente a mulher foi levada para ser julgada por Jesus e, como todos sabemos, ela não poderia ter cometido adultério sozinha.

Escrever com o Dedo

 

Seguindo adiante na análise da passagem bíblica, no momento que Jesus é confrontado com a questão, sua reação inicial é sentar-se é pôr-se a escrever no chão com o dedo. Essa é uma imagem carregada de simbologia e que, de certo modo, situa e contextualiza o ensinamento dentro da tradição judaico-cristã. Para entender o significado da imagem de “escrever com o dedo”, penso ser necessário revisitar outros trechos da Bíblia, quando Deus "escreveu com seu próprio dedo" as tábuas da lei de Moisés. São eles:


Antigo Testamento, livro do Êxodo, capítulo 31, versículo 18: “Depois de o Senhor ter acabado de falar a Moisés no Monte Sinai, entregou-lhe as duas tábuas do testemunho, tábuas de pedra, escritas com o dedo de Deus.”


Antigo Testamento, livro de Deuteronômio, capítulo 9, versículo 10: “O Senhor entregou-me as duas tábuas de pedra escritas com o Seu dedo divino, e contendo todas as palavras que o Senhor vos dirigira sobre a montanha, do meio do fogo, no dia da Assembleia.”


Percebe-se, portanto, que o texto bíblico, no Antigo Testamento, utilizou em duas ocasiões dessa imagem de “escrever com o dedo” para falar sobre o ato de Deus gravar em pedra suas leis quando as entregou para Moisés. Essa imagem é retomada no Evangelho de São João, no momento que Jesus se depara com o dilema proposto pelos escribas e fariseus. Jesus inclinou-se e, com seu dedo, o dedo do filho de Deus, que é o dedo de Deus, passou a escrever aquela que será a nova lei. A lei de Moisés, escrita pelo dedo de Deus, foi escrita na pedra no alto de um monte. Era a lei que trouxera o povo de Deus até aquele momento, mas que também mandava apedrejar a mulher adúltera até a morte. A nova lei, que começava a ser escrita e que não vinha destruir a antiga (como Cristo dissera), é agora escrita no chão onde todos pisam e, para lê-la, penso que talvez o homem precise dobrar-se, inclinar-se como Cristo fez para escrevê-la, ou seja, precise de humildade, penitência, piedade. Em suma, a nova lei trazida por Cristo é a lei do amor e da caridade e, neste contexto, o episódio da mulher adúltera adquire enorme importância, pois o momento em que Jesus se vê diante da questão é o instante em que surge novamente a imagem do dedo de Deus escrevendo suas leis. A cilada armada pelos escribas e fariseus, de fato, não tinha saída dentro das leis de Roma e da lei de Moisés. O episódio da mulher adúltera ilustra magnificamente a necessidade da nova lei que Cristo trazia e, talvez por isso, seja nele que surja a imagem de Jesus escrevendo com o dedo esta lei. A nova lei de Cristo não descumpria a lei de Moisés, mas atualizava-a, nos termos que veremos a seguir.

O Ensinamento Moral

 

Passo, por fim, a análise do ensinamento moral presente na passagem, talvez o conteúdo mais belo e rico do trecho. Instado a se manifestar diante da realidade de que a mulher trazida a julgamento cometeu um pecado e que a lei de Moisés determina seu apedrejamento, Jesus diz: “Quem de vós estiver sem pecado seja o primeiro a lançar-lhe uma pedra”. A sentença de Cristo não absolve os pecados da mulher, mas retira da multidão, igualmente pecadora, o direito de julgá-la, pelo simples fato de que cada um dos acusadores se percebe tão necessitado da misericórdia de Deus quanto aquela mulher adúltera o era da indulgência deles naquele momento. E aqui resta a questão: dentro desta ótica, será que é dado a algum ser humano o direito de julgar os pecados de outro ser humano ao ponto de fazer-lhe pagar com a vida por este pecados? Alguém teria a vida assim tão limpa e tão ilibada? Ou será que este direito caberia somente a Deus, afinal foi ele que nos deu a vida? O argumento de Cristo parece tocar primeiro o coração dos mais velhos, talvez por terem consciência do maior número de pecados dos quais necessitavam de perdão. Depois os mais jovens também os seguem, até restar comente Cristo e a mulher. 
 

Acho muito interessante ressaltar também alguns pontos da interpretação desta passagem presentes no Evangelho Segundo o Espiritismo, de Allan Kardec. Chamando a atenção para a necessidade do dever de indulgência para com os outros, pois não há quem não a necessite para si próprio, Kardec ainda lança um questionamento sobre a intenção de quem lança uma repreensão à conduta de alguém: “O reproche lançado à conduta de outrem pode obedecer a dois móveis: reprimir o mal, ou desacreditar a pessoa cujos atos se criticam. Não tem escusa nunca este último propósito, porquanto, no caso, então, só há maledicência e maldade”. No exemplo do episódio bíblico, a má-fé dos acusadores é evidente, no sentido de que nunca houve intenção real de cumprir a lei de Moisés, até pela ausência do homem pecador, conforme já comentado, mas de armar uma cilada para Jesus. A intenção do acusador será, como veremos, um fator determinante na representação do episódio na história da arte, sendo a mulher adúltera algumas vezes apresentada como o elemento único de pureza e inocência da questão.
 

Em outro trecho, Kardec aborda o significado do ato e das palavras de Jesus: “Não é possível que Jesus haja proibido que se profligue o mal, uma vez que Ele próprio nos deu o exemplo, tendo-o feito, até, em termos enérgicos. O que ele quis significar é que a autoridade para censurar está na razão direta da autoridade moral daquele que censura. Tornar-se alguém culpado daquilo que condena em outrem é abdicar desta autoridade, é privar-se do direito de repressão.” A repressão do mal, feita de forma sincera, começa pela repressão no próprio indivíduo e não nos outros. Não cabe a um indivíduo que não reprimiu um mal em si, querer reprimi-lo nos outros. Esse é um ensinamento da nova lei, da lei de Cristo, estabelecido com sua sentença “Quem de vós estiver sem pecado seja o primeiro a lançar-lhe uma pedra”. Esta sentença retirou a autoridade moral da multidão para prosseguir com o apedrejamento. Daí, talvez, a sequência de eventos do episódio: surge a questão, Jesus inclina-se e escreve a nova lei, vem a sentença, a multidão se dispersa. 
 

Jesus, no entanto, dita a sentença, volta a escrever no chão. A lei, portanto, continua a ser escrita. Quando se vê sozinho com a mulher, ele pergunta para ela onde estão os que a acusavam e se ninguém a havia condenado? Ela lhe responde que ninguém a condenara. Cristo, tampouco, a condena e apenas pede que ela parta e não peque mais. Podemos nos perguntar: mas nem Cristo teria autoridade moral para condená-la? Eu aqui vou simplesmente opinar. Ele primeiramente não a condenou porque não havia mais acusação. Jesus atuou como julgador naquele processo e não como acusador. Ele nunca a acusou de nada e sabia de todos os erros e farsas daquela situação. Além disso, embora seja o Filho de Deus ou o Verbo Encarnado, Jesus ali estava como homem e, como tal, colocou-se também em igual condição como os demais seres humanos perante aquela mulher e não a condenou por um ato cuja condenação caberia, se fosse o caso, a Deus. E, ainda assim, conforme seus ensinamentos, o arrependimento sincero é, aos olhos de Deus, razão suficiente para sermos perdoados. Não temos como enganar Deus quanto às nossas reais intenções e sentimentos, mas o perdão e a indulgência aos pecados dos outros e o arrependimento sincero dos nossos próprios pecados serão percebidos por Deus e evitarão nossa própria condenação. O ensinamento de Jesus no episódio da mulher adúltera nos fala, portanto, sobre a autoridade moral para julgar os outros, a indulgência que devemos ter para com eles porque precisamos para nós mesmos, além do valor do perdão e do arrependimento sinceros.

 

Uma Interpretação Contemporânea


É curioso, entretanto, observar como uma representação contemporânea do mesmo episódio bíblico pode mostrar uma interpretação completamente diferente. Me refiro a um trecho do filme A Última Tentação de Cristo (1988, direção Martin Scorsese). Primeiramente, cabe esclarecer que o filme jamais se propôs a ser uma tradução fidedigna das Escrituras, e sim de fazer sua própria leitura dos episódios bíblicos, tendo neste processo causado muita polêmica entre religiosos na época de seu lançamento.

 

No filme, a mulher a ser apedrejada é Maria Madalena, cercada por um grupo liderado por Zebedeu, em verdadeira ânsia punitiva. Jesus coloca-se entre Madalena e o grupo, apresenta-lhes duas pedras enormes e desafia a quem estivesse sem pecados que atirasse aquelas duas. Zebedeu adianta-se e prontifica-se a atirar, dizendo que nada tem a esconder. Jesus precisa encará-lo e lembrar-lhe da maneira como trata seus empregados e de suas relações adúlteras com uma viúva. Pergunta-lhe se não tem medo que Deus lhe paralise o braço que vai atirar a pedra. Zebedeu titubeia, deixa a pedra cair e desiste. A multidão se dispersa e Jesus a reúne novamente para se dirigir a ela. 


Observo que, nesta representação, a consciência da multidão (representada por Zebedeu), mesmo diante do argumento de Cristo, desafiou-o e precisou de provas de que Deus tinha conhecimento de fato de seus pecados para, somente então e a contragosto, desistir do apedrejamento. Neste exemplo, o argumento de Cristo não causou uma reflexão ou mudança de atitude na multidão, que inclusive permaneceu disposta a ir em frente com o apedrejamento. A mudança de atitude de Zebedeu se deu mediante provas de conhecimento dos pecados, que ele julgava desconhecidos, e ameaça direta. Tal atitude, penso eu, é típica de uma representação contemporânea, no sentido de por em dúvida a onisciência de Deus, constituindo-se em um anacronismo se projetado para os tempos de Cristo. De qualquer modo, penso que a lei de Cristo aparece aqui como uma força eminentemente repressora, talvez em um bom sentido, uma espécie de “repressão ao repressor”, ou seja, uma forma de manter sob controle o que, de outra forma, seria uma turba descontrolada e com sanha punitiva. Mas ainda assim uma repressão, uma forma de controle social e não uma forma de convencimento e estabelecimento de um princípio moral. É uma representação que, como várias que veremos adiante, além de falarem do episódio em si, falam muito de seus próprios tempos e lugares.


Bem, feitas essas considerações, que não têm a menor pretensão de esgotar o assunto, ou tampouco de estabelecer conceitos definitivos sobre o mesmo, penso que temos uma boa base para analisarmos as imagens a seguir. Vamos a elas.

Michael Pacher (1435-1498)
St Wolfgang Altarpiece: Christ and the Adulteress, 1479-81
Wood, 173 x 140,5 cm
Parish Church, Sankt Wolfgang

Uma das obras mais antigas que consegui localizar com este tema trata-se de um dos painéis do Retábulo de St. Wolfgang, localizado na Igreja de St. Wolfgang, St. Wolfgang, Áustria. O retábulo é um políptico, com vários painéis representando cenas da vida de Cristo e da Virgem. Foi pintado por Michael Pacher (1435-1498), pintor que atuou no norte da Europa no século XV, período renascentista, embora tenha estudado com artistas italianos e tenha sido influenciado especialmente por Andrea Mantegna.


A imagem nos mostra Cristo e mulher adúltera no centro da composição, dentro do Templo, que aparece em uma perspectiva centralizada e forçada, bem ao gosto renascentista italiano. Cristo aponta para o chão, ou seja, aponta para a nova lei que ele acabou de escrever, desautorizando os escribas e fariseus, que saem do Templo, contrariados, atrás da mulher. Curiosamente, o chão não é formado por terra ou uma substância que permita marcar a escrita, como talvez fosse de se esperar, mas por pedra, que certamente é mais apropriada à suntuosa arquitetura do Templo. Veremos outros casos assim adiante, ainda que a escrita até apareça no chão.


Na cena mais ao fundo, percebe-se a situação anterior, a realidade que Cristo modificou. Naquela situação, a figura de preto que aparece em primeiro plano (provavelmente o escriba, que tinha a função de interpretar a lei de Moisés), aponta o rumo a ser seguido, ou seja, conduz os rumos dentro do Templo. A imagem, portanto, no meu entender, ilustraria esta mudança de poder que Cristo tirou das mãos dos escribas e fariseus. Enquanto o escriba apontava o rumo que queria, ao fundo, Cristo agora aponta para a lei de Deus, a palavra de Deus, escrita no chão, à vista de todos, como autoridade suprema e tira o poder dos escribas e fariseus, que saem do templo com olhar de ódio.


Cabe lembrar que, em 31 de outubro de 1517, Martinho Lutero afixou suas 95 Teses na porta da Igreja do Castelo de Wittenberg, iniciando a reforma protestante que, entre outras coisas, pregava a necessidade do fiel conhecer diretamente a palavra de Deus, através da leitura da Bíblia e eliminando a necessidade de intermediários. Obviamente que não estou aqui ligando uma coisa diretamente à outra, apenas criando uma relação entre a imagem e as ideias que circulavam na época e na região em que ela foi produzida e como elas se misturam com o episódio bíblico que representam.  

Ticiano Vecellio (1488-1576)
Christ and the Adulteress, 1508-10
Oil on canvas, 139 x 182 cm
Kelvingrove Art Gallery and Museum, Glasgow

O pintor veneziano Ticiano Vecellio, um dos maiores gênios da história da arte e do renascimento italiano, dispensa maiores apresentações. Sobre a obra aqui mostrada, chegou a haver dúvidas não apenas sobre sua autoria, como também sobre sua temática. Pensou-se tratar de uma obra de Giorgione, pintor veneziano contemporâneo e amigo de Ticiano que morreu jovem, mas hoje acredita-se que seja mesmo um quadro da fase inicial do grande mestre de Veneza. Da mesma forma, houve dúvidas quanto à temática, acreditando-se que o episódio retratado poderia ser a passagem de Susana e Daniel, presente no Antigo Testamento, Livro de Daniel, Capítulo 13, também conhecido das representações artísticas como “Susana e os Velhos” ou “Susana e os Anciões”. De qualquer forma, o entendimento hoje é de que o episódio retratado é o do Evangelho de São João.


A cena do quadro de Ticiano chama atenção inicialmente pelo seu aspecto dinâmico. Parece haver um fluxo de movimento entre as figuras, desde a mulher, à direita, até a última figura do outro lado, passando por Cristo e pelo soldado ao lado esquerdo dele, que veste uma armadura preta. Cristo parece estar em uma atitude de contenção ao homem situado à esquerda da mulher, certamente um de seus acusadores. A mulher parece em atitude de desespero, próxima a um desfalecimento. É interessante a semelhança entre a horizontalidade do braço direito de Cristo, que parece tentar conter o homem à direita na composição, e o braço direito do soldado, cujo dedo parece apontar para o chão, cumprindo a função de apontar para a nova lei, função essa que, na imagem analisada anteriormente, foi desempenhada pelo próprio Cristo. Nessa representação, portanto, Cristo parece já ter um aliado, alguém que não apenas compreendeu sua mensagem, mas que está ajudando a espalhá-la. E alguém que detém de um forte poder entre os homens, como sugere sua armadura.


Nesse sentido, trago aqui a análise da autora Beverly Louise Brown, que destaca o medalhão pintado por Ticiano na parede atrás de Cristo, um pouco acima da sua cabeça. Segundo Brown, não era incomum encontrar imagens numismáticas como estas na arte de meados do século XV, e este medalhão faria referência ao imperador romano Augusto, não apenas por semelhança, mas por ser comum relacionar este soberano de Roma com a virtude e a boa governança. A figura do soldado de armadura, ainda segundo Brown, olha para a efígie de Augusto e aponta para ela com seu braço esquerdo oculto. Aqui ele faria a conexão entre o julgamento de Cristo, sua misericórdia e perdão, e o reinado exemplar de Augusto, ou ainda, entre o secular e o religioso, entre o cristianismo e a antiguidade. Brown conclui sua análise dizendo que tais indicações sugerem que a obra foi pensada para um espaço cívico, para servir de exemplo a vereadores ou juízes.


Mais uma vez, pode-se perceber as questões de tempo e lugar sendo determinantes na produção da imagem. Veneza, naquele momento, vê aflorar com orgulho seu passado e seu legado romano, a exemplo de Florença. Como conciliar este passado, seus mitos e seus heróis, com a fé cristã, tantas vezes perseguida por estes próprios antepassados? Essa conciliação precisa se dar na esfera moral, cultural, artística. Na percepção de que, no fundo, os princípios e valores que moveram tanto Cristo quanto o imperador Augusto, eram semelhantes, apesar de tudo. E é, talvez, o que Ticiano tenha tentado proporcionar.   

Palma Vecchio (1480-1528)
Christ and the Woman Taken in Adultery, 1510-11
Oil on canvas, 82 x 70 cm
The Hermitage, St. Petersburg

Palma Vecchio (ou Palma, o Velho) é a forma como é conhecido o pintor veneziano cujo nome de batismo é Jacopo Nigretti, nascido em Serina, Bergamasco, por volta do ano 1480. O adjetivo “velho” (vecchio, em italiano) é acrescentado ao seu nome para diferenciá-lo de seu sobrinho, Giacomo Negretti (1549-1628), também pintor, conhecido como Palma, o Jovem (ou simplesmente Palma Giovane). Palma Vecchio é contemporâneo de Giorgione e Ticiano em Veneza, tendo um estilo parecido com os dois pintores mais influentes da pintura veneziana. Em Vidas..., Vasari destaca sua qualidade na retratação do que há de mais vivo e natural nos homens, bem como sua qualidade na integração e esfumatura paciente das cores.


Na obra aqui trazida, o que mais parece se destacar é a abordagem psicológica dos personagens, presente em suas expressões e jogo de olhares. Esta não é uma abordagem estranha à pintura veneziana da época, basta lembrarmos de exemplos mais famosos como o retrato Homem com Luva, de Ticiano, do Museu do Louvre. Neste exemplo, percebe-se que, diferente da obra anterior, a mulher não tem medo ou está prestes a desfalecer e sustenta de cabeça erguida a situação a que está sendo submetida, olhando seu acusador nos olhos, sem nenhuma aparência de culpa ou arrependimento. O acusador, um velho, não sustenta o olhar dela, olha para longe, com uma expressão pensativa e aflita. Seu rosto está envolto em sombras, deixando evidente as suas intenções maliciosas. Cristo, ao centro, aponta para a mulher. Neste caso a referência só poderia ser a sentença “quem de vós estiver sem pecado seja o primeiro a lançar-lhe uma pedra”, que aqui perde um pouco do sentido uma vez que ele está se dirigindo a uma única pessoa. O olhar de Cristo é severo, mas ele parece estar sorrindo de canto de boca, não é mesmo? Ao fundo, dois homens assistem à cena. Um deles com expressão de extremo interesse e curiosidade. O outro arregala os olhos e abre a boca com evidente expressão de pasmo e surpresa.


Não achei nenhuma referência quanto ao que vou dizer ou tampouco uma imagem com qualidade suficiente que me permitisse ler a inscrição pintada no quadro para sustentar ou derrubar minha opinião. Mas a verdade é que não me espantaria se houvesse uma controvérsia sobre a temática desta obra como havia com a de Ticiano, porque me parece haver bastante elementos para enquadrá-la como uma representação da passagem de Susana e Daniel presente, como já disse, no Antigo Testamento, Livro de Daniel, Capítulo 13.

 

Senão, vejamos: Susana era uma jovem bela e virtuosa casada com Joaquim, também virtuoso, e ambos viviam de acordo com a lei de Moisés. Frequentavam a casa de Joaquim dois velhos juízes, que logo passaram a consumir-se em desejo por Susana. Junto à moradia do casal, havia um jardim, onde Susana costumava passear acompanhada de seus criados e onde os velhos juízes passaram a se esconder depois que deixavam a casa para poder observá-la. Um dia, Susana ordenou a seus criados que fechassem o jardim e lhe preparassem um banho, sendo que os velhos estavam escondidos lá dentro. Estes, percebendo a oportunidade de satisfazer a lascívia, atacaram Susana e exigiram que ela se entregasse eles ou a denunciariam por terem-na surpreendido em adultério com outro homem. Susana, diante do dilema, preferiu permanecer pura aos olhos de Deus e gritou por seus criados. Os juízes gritaram também, abrindo os portões e afirmando estarem passeando no jardim do amigo Joaquim, quando surpreenderam Susana em adultério com um jovem que, por ser mais forte, lhes escapou. O caso foi levado a julgamento e todos acreditaram na palavra dos respeitáveis juízes, sendo Susana condenada à morte por apedrejamento, conforme apregoava a lei de Moisés. Entretanto, inspirado por Deus, o jovem Daniel interveio na situação quando ela já estava sendo levada para execução e conseguiu reiniciar o julgamento, ouvindo novamente o testemunho dos juízes, desta vez, em separado. Para o primeiro, Daniel perguntou sob que árvore eles haviam surpreendido os dois amantes, ao que ele respondeu que havia sido sob um lentisco. Repetindo a pergunta ao segundo juiz, também em separado, a resposta obtida foi sob um carvalho. Ficou assim evidenciada a mentira dos dois velhos, que foram condenados à morte, e a inocência de Susana.


Penso que esta obra de Palma Veccchio talvez se adapte melhor a esta narrativa do que ao episódio da mulher adúltera do Evangelho de São João, baseado somente na análise visual da obra, uma vez que sou apenas um interessado no assunto, moro na América do Sul e não tenho acesso sequer a uma versão com qualidade suficiente da imagem que me permita ler a inscrição que consta nela. Dito isso, vejamos: a postura da mulher, de cabeça erguida, olhando seu acusador nos olhos, parece ser mais adequada para uma mulher que sabe estar sendo acusada de algo que não fez (Susana) do que para uma mulher que talvez tenha feito algo do que esteja arrependida (a mulher adúltera). Da mesma forma, o olhar distante e pensativo do velho parece evocar mais uma expressão de quem percebe que foi pego em uma mentira do alguém que ouviu uma sentença e está refletindo no quanto ele precisa ser misericordioso para com aquela mulher diante dele, pois ele também precisa de misericórdia. A figura central, com olhar severo e inquisidor e um sorriso de canto de boca, parece mais estar desfrutando do momento de ter pego um mentiroso no ato do que propriamente em atitude de quem está ensinando uma valiosa lição moral. Neste caso, essa figura seria Daniel e não Jesus. Quanto às duas figuras de fundo, elas representariam o interesse despertado pelo interrogatório e pelas novas provas trazidas por Daniel, bem como a surpresa pela reviravolta no caso e pela revelação de que os juízes eram os mentirosos. Não se vê indícios do povo refletindo e deixando o local, como seria de se esperar em uma representação da passagem da mulher adúltera.  

Palma Vecchio (1480-1528)
Christ and the adulteress, 1525-28
Oil on canvas,75 x 78,5 cm
Musei Capitolini, Roma

Palma Vecchio pinta outro quadro formalmente bem semelhante cerca de 15 anos depois do primeiro. Embora seja muito parecido, as diferenças são fundamentais e, neste segundo, penso eu, são essas diferenças que estabelecem a temática de forma muito mais clara. Primeiramente, a atitude da mulher é outra. Agora ela olha para baixo, colocando-se em uma postura de evidente arrependimento e não mais de desafio. O velho, ainda tem seu rosto envolto pelas sombras, demonstrando sua intenção originalmente maliciosa, mas agora parece olhar para os céus, e sua mão solta a mulher, como que deixando-a ir. Os homens atrás, têm atitude semelhante, seus olhares parecem estar evocando alguma reflexão. Cristo agora tem uma expressão séria e olha intensamente para nós, convidando-nos a refletir também sobre o que acabou de se passar ali. Parece-me que aqui nós estamos diante de uma imagem que pretende, como a passagem bíblica, nos passar uma mensagem de fundo essencialmente moral sobre arrependimento e perdão e, desta forma, não teria como não relacioná-la, a partir dos elementos que ela mostra, com o episódio do Evangelho de São João. 

 

De qualquer forma, as duas imagens de Palma Vecchio, independente da leitura que se faça, são extremamente ricas em termos da abordagem e postura psicológica dos personagens envolvidos e duas obras de arte de altíssima qualidade. Mostram um artista que certamente dominava não apenas sua técnica, mas também a essência dos episódios que representava visualmente, bem como a expressão humana e seus requintes e manifestações corporais.

Lorenzetto (1490–1541)

Christ and the Woman Taken in Adultery, 1520

Bronze altar frontal, 62 x 210 cm

Santa Maria del Popolo, Rome

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Rocco Marconi (1490-1529)
Christ and the Adulteress, c. 1525
Oil on canvas, 131 x 197 cm
Gallerie dell'Accademia, Venice

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Garofalo, ou Benvenuto Tisi (1481-1559)
Cristo e a Adúltera, primeira metade do séc. XVI
Óleo em madeira, 55 x 44 cm
Szépmûvészeti Múzeum, Budapeste

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Lorenzo Lotto (1480- 556)
Christ and the Woman Taken in Adultery, 1527-29
Oil on canvas, 124 x 156 cm
Musée du Louvre, Paris

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