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O HACER - História da Arte e da Cultura: Estudos e Reflexões é uma publicação do Coletivo HACER sob a Licença

Creative Commons 4.0 Internacional (CC BY-NC 4.0) 

O Que a Água me Deu, de Frida Kahlo

Frida Kahlo (1907-1954)

Lo que el agua me dio ou Lo que vi en el agua, 1938

Óleo sobre tela, 91 x 70,5 cm

New York, Isadore Ducasse Fine Arts

INTRODUÇÃO

 

Frida Kahlo é o tema da obra de Frida Kahlo. A famosa artista mexicana pintou a si mesma e a sua realidade porque, segundo ela, era o assunto que melhor dominava. Sua obra apresenta uma intensa produção de autorretratos, bem como uma série de pinturas que se referem a episódios de sua biografia, marcada pela tragédia em um acidente ocorrido na sua juventude e que deixou marcas e sequelas para toda sua vida. Nesse processo de pintar a si mesma, Frida desenvolveu sua própria linguagem pictórica, utilizando-se de elementos simbólicos que dialogam com determinadas situações, sentimentos e modos de ser particulares da pintora. A obra Lo que el agua me dio ou Lo que vi en el agua, pintada em 1938, apresenta muitos destes elementos. Embora não se veja o rosto da artista nesta pintura, a tela parece também nos oferecer um retrato de Frida Kahlo. Não um retrato exterior de suas feições, mas um retrato interno, de sua psicologia, angústias, preferências e marcas deixadas pela vida. Uma reunião de elementos de difícil interpretação, que mescla referências a obras e artistas com o próprio universo simbólico da pintora. O que vemos na água é o complexo mundo da artista e da mulher Frida Kahlo. Um mundo que vale a pena tentar desvendar.

ANÁLISE FORMAL

A pintura em questão nos mostra parte de uma banheira com água. Há uma pessoa dentro, da qual enxergamos apenas parte das pernas e dos pés.  Rapidamente intui-se que esta pessoa é uma mulher, pois os dedos dos pés estão pintados de vermelho, e que é a própria Frida Kahlo, levando-se em conta o título da obra. Os pés estão apenas parcialmente submersos, sendo que a parte emersa encontra-se refletida na água. Os reflexos são quase idênticos aos pés, parecendo formar com eles uma única e estranha figura, sem apresentar ondulações ou as imperfeições típicas da água. A banheira é mostrada por cima, a partir do olhar da própria Frida pintada, encontrando-se em posição vertical em relação à tela, com suas bordas laterais extrapolando os limites da imagem, enquanto a parte inferior, junto aos pés, situa-se no limite superior do quadro. Nesta parte, há um pequeno fundo neutro, em um tom bege claro. A banheira é de cor branca com um sombreamento azulado. No centro da banheira, como se estivessem flutuando na água, encontram-se várias figuras, objetos e cenas, formando uma espécie de aparição fantástica. Essa parte da pintura será tratada mais detalhadamente ao longo do texto. Essas figuras se orientam em grande parte em linhas diagonais, contrastando com as disposições verticais e horizontais da banheira, das linhas da água e das pernas. Esta configuração confere um certo dinamismo a estes elementos fantásticos, em oposição ao aspecto estático geral da obra, estabelecido pela verticalidade e horizontalidade da banheira, das linhas da água e das pernas, e ainda reforçada pelo reflexo sem ondulações dos pés, só possível em uma água muito parada. A imagem como um todo apresenta um aspecto linear, no qual o traço do desenho parece estruturar o aspecto das figuras. Em alguns casos, há uma grande riqueza de detalhes. Embora apareçam juntos ou próximos, os elementos do quadro não se sobrepõem uns aos outros, aumentando a sensação de pluralidade da tela, que parece apresentar várias partes independentes entre si.

ANÁLISE TEMÁTICA E SIMBÓLICA

Identidade de Frida Kahlo

 

Outros detalhes ainda colaboram para se estabelecer a identidade de Frida Kahlo como a pessoa dentro da banheira, e aqui já se torna necessário o resgate de algumas passagens da biografia da artista. Aos seis anos de idade, Frida teve poliomielite e, como sequela desta doença, sua perna direita ficou deformada, tendo-lhe sido colocado o apelido de “Frida perna de pau” na sua infância devido a isso. “Esse foi um sofrimento que, enquanto adolescente, ela procurou esconder dentro das calças e, mais tarde, debaixo de compridas saias mexicanas.” (KETTENMANN, 2010, p. 10). Além disso, em 1934, já adulta, Frida teve alguns dedos do pé direito amputados por decorrência da doença. Na pintura, percebe-se que a perna direita da mulher na banheira apresenta cicatrizes. O pé direito parece levemente deformado e com um profundo corte, que parece quase decepar totalmente o dedão. Pode tratar-se também de marcas do grande acidente que ela sofreu aos 18 anos, em 1925, quando o bonde no qual andava chocou-se com um trem, quase a matando e deixando-lhe gravemente ferida. De qualquer forma, Frida representa com detalhes uma parte do seu corpo que procurava habitualmente esconder, indicando um possível desejo de mostrar-se inteiramente na obra. 

A Água


Estabelecida a identidade da artista, passa-se a questão propriamente dita colocada pelo título da obra: o que ela viu na água, ou o que a água lhe deu. Em primeiro lugar cabe perguntar: por que a água? “As significações simbólicas da água podem reduzir-se a três temas dominantes: fonte da vida, meio de purificação, centro de regenerescência”. (CHEVALIER; GHEERBRANDT, 2009, p. 15). Pode-se também aliar alguns elementos simbólicos decorrentes do ato de banhar-se, também associados à purificação e regeneração. Além disso, a água calma da banheira traz também uma ideia de pausa, calma e relaxamento. “Para o psicanalista, a imersão é uma imagem de regressão uterina. Satisfaz uma necessidade de calma, de segurança, de ternura, de recuperação, sendo o retorno à matriz original, um retorno à fonte da vida.” (CHEVALIER; GHEERBRANDT, 2009, p. 119). A água, simbolicamente, parece funcionar como uma combinação destes elementos, ou seja, não apenas associada à vida, mas um desejo de pausa e regressão, um olhar para trás, com a esperança de purificação e regeneração. Mas ainda cabem outros sentidos que, novamente, parecem passar pela biografia da artista. Após o acidente de 1925, Frida ficou três meses de cama. Nesse período, iniciou sua atividade como pintora. Foi colocado sobre sua cama um espelho, no qual ela conseguia ver seu rosto, tornando-se assim sua própria modelo. A água, desse modo, pode também estar associada à questão do reflexo, o que parece indicado pela pintora no modo como ela pinta seus pés refletidos. O reflexo parece idêntico ao próprio pé, como se o objeto real e sua imagem fossem uma única coisa. Frida pode estar indicando que os elementos na banheira são seu próprio reflexo e uma parte integrante da sua realidade. No entanto, o reflexo que a água lhe mostra é diferente da imagem do espelho. Frida está imersa na água, e o que a água lhe mostra são vários elementos, que juntos são parte dela, como uma imagem interna de Frida Kahlo.

Os Pais de Frida

Nem todos os elementos que aparecem representados no centro da banheira conseguem ter seus significados identificados dentro do universo de simbolismos que a pintora utiliza. No entanto, eles parecem conectados diretamente a episódios da sua vida ou a elementos psicológicos da artista. Essa conexão, de certa forma, diminui o caráter surrealista do quadro, que formalmente pode se associar a este gênero devido ao uso de elementos fantásticos. No entanto, estes elementos estão ligados à realidade de Frida, constituindo-se em uma linguagem particular com a qual ela aborda a si mesma, e não a um universo onírico, que seria mais ao gosto do surrealismo.


Um dos elementos mais facilmente identificáveis na obra é o retrato dos pais de Frida (figura abaixo à esquerda). A representação parece remeter a outra pintura realizada pela artista em 1936 (figura abaixo à direita), na qual ela representa seus pais e avós, bem como a ela mesma como menina. Frida teve uma relação distinta com seus pais: enquanto descreve seu pai com ternura, parece ter tido com a mãe uma relação ambígua, considerando-a bondosa e inteligente, mas ao mesmo tempo, calculista e cruel (KETTENMANN, 2010, p. 9). Frida também se referiu em entrevistas ao fato de sua mãe não ter podido amamentá-la, devido ao fato de sua irmã Cristina ter nascido onze meses depois dela. Frida foi amamentada por uma ama índia, episódio que ela retrata na pintura A Minha Ama e Eu (1937). Este maior distanciamento da mãe parece transparecer na obra Lo que el agua me dio, uma vez que a figura da mãe encontra-se mais encoberta pela vegetação do que o pai. De certa forma, o pai parece estar mais próximo e com menos obstáculos entre ele e o ponto de vista da artista.

Frida Kahlo (1907-1954)

Lo que el agua me dio ou Lo que vi en el agua, 1938 (detalhe)

Óleo sobre tela, 91 x 70,5 cm

New York, Isadore Ducasse Fine Arts

Frida Kahlo (1907-1954)

Mis abuelos, mis padres y yo, 1936

Óleo e têmpera sobre metal, 30.7 x 34.5 cm

New York, The Museum of Modern Art (MoMA)

Bissexualidade ou as Duas Fridas

Próxima ao retrato dos pais de Frida, encontra-se uma representação na qual se vê duas mulheres nuas, uma de pele clara, deitada, acolhida por outra de pele morena, sentada, sobre uma superfície que lembra uma esponja (figura abaixo à esquerda). Essa imagem pode fazer referência à relação entre Frida e sua ama índia, mas é mais provável que remeta à bissexualidade da artista, que manteve uma série de relacionamentos com mulheres ao longo de sua vida. Essa probabilidade se baseia no fato da artista ter repetido a mesma cena em outra pintura (figura abaixo à direita) no ano seguinte à realização de Lo que el agua me dio. Esta pintura, por sua vez foi dada de presente para a atriz mexicana Dolores del Rio (1905-1983), suposta amante da pintora. De qualquer forma, a cena parece mais reforçar sentimentos de acolhimento, intimidade e carinho entre as duas mulheres do que explorar um conteúdo sexual mais intenso. A cena ainda pode remeter à dualidade com que Frida via a si mesma, composta por uma parte mexicana e outra europeia, explorada por ela na obra Las dos Fridas (1939).

Frida Kahlo (1907-1954)

Lo que el agua me dio ou Lo que vi en el agua, 1938 (detalhe)

Óleo sobre tela, 91 x 70,5 cm

New York, Isadore Ducasse Fine Arts

Frida Kahlo (1907-1954)

Dos desnudos en un bosque, 1939

Óleo sobre metal, 25 x 30.5 cm

Coleção de Jon e Mary Shirley

Frida Kahlo (1907-1954)

Las dos Fridas, 1939

Óleo sobre tela, 173 x 173 cm

Ciudad de México, Museo de Arte Moderno

O Vulcão

 

Logo acima dessa cena, surge um conjunto de elementos sobre uma superfície que remete a uma ilha (figura ao lado). Trata-se de uma parte bastante complexa da pintura, com os elementos que mais se aproximam do gênero surrealista. A começar pela estranha representação de um vulcão com um prédio saindo por sua cratera. O prédio parece surgir como um símbolo fálico, o que remete rapidamente a uma cena de conotação sexual. Pela conformação da cena, entretanto, a interpretação mais provável não é a de uma penetração, mas de uma “vagina dotada de um grande falo” (CERVO, 2012), remetendo também à dupla sexualidade da artista. O contraste entre o calor do vulcão e suas formas mais curvas com o aspecto frio e retilíneo do prédio também podem remeter ao acidente de Frida, quando ela foi “perfurada por uma barra de ferro que atravessou sua pélvis e saiu por sua vagina” (CERVO, 2012). 

Frida Kahlo (1907-1954)

Lo que el agua me dio ou Lo que vi en el agua, 1938 (detalhe)

Óleo sobre tela, 91 x 70,5 cm

New York, Isadore Ducasse Fine Arts

Hieronymus Bosch (c. 1450-1516)

O jardim das delícias terrenas (detalhe), 1504

Óleo sobre madeira, 220 × 389 cm 

Madrid, Museu do Prado

O Pássaro Gigante

Ao lado do vulcão, aparece uma árvore com um pássaro proporcionalmente enorme deitado de costas sobre a copa do vegetal. A posição do pássaro parece lembrar a de uma pessoa enferma convalescendo sobre uma cama, o que novamente encontra respaldo na biografia da artista, que passou longas temporadas de cama por conta de seu acidente. A ideia do pássaro, um animal que voa e se movimenta livremente pelos ares, em estado de convalescença pode ser um símbolo das dificuldades enfrentadas por Frida durante toda sua vida, ela sentindo-se também como um pássaro, um espírito desejoso de alçar voos maiores, mas presa em um corpo quebrado e necessitando passar por constantes internações hospitalares. O aspecto e tamanho do pássaro remetem ainda à pintura O jardim das delícias terrenas (figura 6), do pintor flamengo Hieronymus Bosch (c. 1450-1516).

A citação de Bosch é interessante ao considerar que ele foi um dos pintores cuja obra causou grande impacto entre artistas surrealistas. Embora Frida negasse que sua obra fosse surrealista, parece que determinados elementos da estética que influenciaram o surrealismo também lhe eram caros, levando em conta que André Breton (1896-1966), um dos maiores expoentes do movimento, a considerasse uma espécie de surrealista intuitiva quando visitou o México.

A Caveira e o Homem Mascarado

 

A ilha ainda contém, de seu lado direito, um pouco abaixo do vulcão, uma pequena caveira sentada sobre um monte. A proximidade da caveira com o vulcão, que pode estar associado ao acidente de Frida, surge com a possibilidade de que represente a morte que a rondou naquele momento. Por outro lado, não se pode esquecer as calaveras do artista gravador mexicano José Guadalupe Posada (1852-1913), que influenciou toda uma geração de artistas mexicanos, entre eles, Diego Rivera (1886-1957), marido de Frida Kahlo. No lado esquerdo da ilha, existe uma misteriosa representação de um homem recostado no solo, vestindo apenas com alguns trapos nos quadris, lembrando a maneira como é vestida a figura de Cristo na cruz nas imagens religiosas. O homem usa uma máscara que parece remeter ao estilo das culturas pré-colombianas, provavelmente asteca. Este homem pode funcionar como uma espécie de alegoria do México, unindo elementos pré-colombianos com cristãos (astecas e espanhóis). De sua mão esquerda parte um fio que passa por vários elementos do lado esquerdo da pintura (figura abaixo) e que retorna à ilha, estando preso a uma rocha pontuda de aspecto fálico. 

Frida Kahlo (1907-1954)

Lo que el agua me dio ou Lo que vi en el agua, 1938 (detalhe)

Óleo sobre tela, 91 x 70,5 cm

New York, Isadore Ducasse Fine Arts

O Fio

Percorrendo este fio, a partir da mão do homem, passa-se por um inseto sobre ele e chega-se à figura de uma mulher nua, parcialmente submersa na água, com longos cabelos negros, lembrando a própria Frida Kahlo. O fio enrola-se em seu pescoço e na sua barriga, ao mesmo tempo parecendo enforcá-la e ser a única coisa que a impede de afundar completamente, e volta a se esticar. A mulher aparentemente está inconsciente e ferida, pois pequenas manchas de sangue saem de sua boca. A partir deste ponto, o fio está repleto de insetos, todos virados na mesma direção, como se estivessem percorrendo um caminho em fila, dando uma ideia de fluxo. Junto com os insetos, percebe-se a figura de uma bailarina. Uma interpretação possível desta cena pode ser a seguinte: o fio representaria uma espécie de linha do tempo da vida da própria Frida, partindo do homem recostado na ilha, que, se considerado uma alegoria do México, pode representar o surgimento da sua linha do tempo (seu nascimento) a partir da terra mexicana.

A presença de fios, linhas e veias na obra de Frida é constante e parecem remeter às mangueirinhas hospitalares usadas para conectar sangue ou soro nas artérias dos pacientes. Esta relação liga-se à ideia de sustentação da vida ou de conexão com algo essencial para manter a vida, bem como à ideia de fluxo, pois estes líquidos percorrem as mangueirinhas. Voltando à interpretação, o fio segue e chega à Frida parcialmente submersa e inconsciente (provavelmente uma representação dela logo após o acidente), enrolando-se e saindo de seu curso e retornando em seguida. A partir deste momento (a partir do acidente) surgem os insetos em maior número. Os insetos, pelo que trazem de repugnância e sentimentos negativos, podem estar associados à ideia de dor, desgostos ou dificuldades. Podem ainda estar associados à morte. Segundo Chevalier e Gheerbrandt (2009, p. 507), “na América Central, os pequenos insetos voadores são considerados frequentemente como almas dos mortos que visitam a terra”. Qualquer destes significados que se possa atribuir, eles parecem ter uma conotação sombria. Nesse aspecto, é significativa a presença de apenas um inseto no trecho inicial do fio (antes do acidente) e de inúmeros no restante, representando possivelmente a presença da dor ou da morte em sua vida a partir daquele momento. Junto com os insetos, uma bailarina, provavelmente uma alusão à arte que surge entre os insetos e segue com eles no seu fluxo.

O Vestido

Um pouco abaixo da representação da mulher inconsciente e nua, encontra-se um vestido flutuando na água. É um típico vestido mexicano, que aparece em várias obras de Frida Kahlo, associado aos mais diversos momentos de sua vida. Parece representar uma afirmação de sua identidade mexicana, uma vez que o vestido é, por assim dizer, uma de suas “marcas registradas”. Por outro lado, pelo fato de encontrar-se abandonado, pode estar associado ao já mencionado desejo de desnudar-se, de mostrar-se por inteira. Pode ainda estar associado à mulher nua e enforcada próxima a ele, tendo sido por ela perdido no ato de violência de que ela está sendo vítima.

A Concha

Continuando o percurso do fio, percebe-se que ele passa ao lado de um objeto que lembra uma concha, na qual existem vários orifícios circulares dos quais jorra água. Frida Kahlo utilizou-se das conchas em uma obra posterior na qual retrata si e a Diego Rivera, seu marido e grande amor de sua vida, como dois rostos pela metade que se unem formando um rosto só (figura abaixo). Nesta obra, Frida utiliza as figuras de uma concha e um caracol, “simbolizando sua união amorosa” (KETTENMANN, 2010, p. 9). Mas, tanto a concha quanto o caracol (que também possui uma concha), também podem estar associados à ideia de fertilidade e fecundidade. “Os astecas chamavam Teccaciztecatl, o da concha, ao seu deus-Lua, cuja representação, que significa nascimento, geração, é a de um útero.” (CHEVALIER E GHEERBRANDT, 2009, p. 270). A figura da concha na obra analisada remete tanto a uma imagem da lua quanto de um útero. O simbolismo da fertilidade parece evidente quando, novamente, se analisa a biografia da artista. Frida Kahlo teve três vezes a gravidez interrompida, nos anos de 1930, 1932 e 1934, devido a problemas decorrentes do seu acidente de 1925. Sua incapacidade de ter um filho de Diego Rivera parece ter sido um grande desgosto para ela. Na obra, a concha aparece quebrada, com rachaduras e jorrando água por orifícios, como se fosse incapaz de retê-la dentro de si.

Frida Kahlo (1907-1954)

Diego y Frida, 1944 

Óleo sobre madeira, 91 x 70,5 cm

Ciudad de México, Coleção de Maria Felix 

O Barco

 

Logo após a concha, surge um rochedo no qual o fio também se enrola e se desvia para a direita. Junto ao rochedo percebe-se um barco à vela, seguindo em uma direção contrária ao fluxo do fio. O barco parece aludir a um desejo de fuga, de afastamento. De fato, Frida separou-se de Diego Rivera em 1935, após descobrir que ele mantinha um caso com sua irmã Cristina, o que a magoou profundamente. Ela acabou indo para os Estados Unidos para afastar-se daquela situação, retornando ao México em 1936 e reatando com Diego Rivera, quando acabou o caso dele com sua irmã.  

O Ralo

 

O fio retorna à ilha de onde saiu, enrolando-se em pequeno rochedo. Neste mesmo ponto, Frida pinta o ralo da banheira (figura ao lado). Não fica claro, entretanto, se o que se vê é um ralo no fundo da banheira ou o reflexo de um ralo que, paradoxalmente, aparece acima do nível da água. Aqui a pintora parece fazer um jogo de imagens bem ao gosto do surrealismo, misturando o que seria o ralo verdadeiro abaixo do nível da água ao reflexo dos seus pés e enfatizando seu status de reflexo ao pintar um inacreditável ralo acima do nível da água. Reflexo e realidade se misturam parecendo criar uma realidade única e fantástica, como as figuras formadas pelos pés e suas imagens na água. 

Frida Kahlo (1907-1954)

Lo que el agua me dio ou Lo que vi en el agua, 1938 (detalhe)

Óleo sobre tela, 91 x 70,5 cm

New York, Isadore Ducasse Fine Arts

Junto a este ralo fora da água percebe-se pequenos fios, que lembram artérias, pingando sangue dentro da banheira. Os fios, no entanto, não são refletidos na água. Este ralo, neste contexto, pode significar um caminho para fora da banheira, por onde escorrerá a água ou, em outras palavras, a morte, o que daria um sentido à artéria cortada pingando sangue junto a ele. No entanto, as implicações em termos de significado que Frida cria com o jogo de reflexos são muito subjetivas, permitindo as mais diversas interpretações. Na verdade, como visto, a obra como um todo permite isso. Talvez seja um de seus grandes méritos.

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Frida Kahlo coloca o espectador no lugar dela, vendo o que ela vê. Nesta obra, não se vê o rosto de Frida, mas se é o rosto de Frida. E, nesta posição, o espectador se depara com uma série de figuras que surgem como uma aparição. Não há como não perguntar: o que são essas coisas? O que significam? Buscando estes significados e estando no lugar de Frida, parece natural o surgimento de uma grande empatia com a artista. Quase toda obra de Frida Kahlo se conecta de alguma forma com sua vida, com sua situação ou sentimentos no momento que a pintou. No entanto, a pintura Lo que el agua me dio, parece ser uma das obras nas quais ela se mostra de forma mais íntima e completa. Suas dores, decepções, prazeres, amores e sofrimentos parecem estar presentes de um modo em que se pode perceber o quanto tudo isso era parte dela e como ela transformou isso em uma arte única. Isso foi o que a água deu a Frida Kahlo, e isso foi o que ela nos deu.

Frida Kahlo pintando a tela Lo que el agua me dio ou Lo que vi en el agua, c. 1938
Fotografia 

REFERÊNCIAS

 

CERVO, Juliana Milman. O que a água me deu. Porto Alegre: Instituto de Psicologia da UFRGS, 2012. Disponível em: <http://www.ufrgs.br/psicopatologia/wiki/index.php/O_que_a_%C3%A1gua_me_deu>. Acesso em: 08 FEV 2019. 

CHEVALIER, Jean; GHEERBRANT, Alain. Dicionário de símbolos: mitos, sonhos, costumes, gestos, formas, figuras, cores, números. 24. ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 2009. 996 p.

FERNANDES, Fabiano Seixas. O mapa íntimo: três telas de Frida Kahlo. Revista Estudos Feministas, Florianópolis, v. 16, n. 1, p. 35-44, jan./abr. 2008. Disponível em: < http://www.scielo.br/pdf/ref/v16n1/a03v16n1.pdf>. Acesso em: 08 fev. 2019.

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KETTENMANN, Andrea. Frida Kahlo: 1907-1954 : dor e paixão. Colônia, Alemanha: Taschen, 2010.

COMO CITAR ESSE TEXTO 

SILVA, Marcelo de Souza. O que a Água me Deu, de Frida Kahlo. HACER - História da Arte e da Cultura: Estudos e Reflexões, Porto Alegre, 2019. Disponível em: <http://www.hacer.com.br/aguamedeu>. Acesso em: [dia mês. ano].