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Bordando no Jardim, de Oscar Boeira

 

O que vemos só vale - só vive - em nossos olhos pelo que nos olha. Inelutável porém é a cisão que separa dentro de nós o que vemos daquilo que nos olha. Seria preciso assim partir de novo desse paradoxo em que o ato de ver só se manifesta ao abrir-se em dois (DIDI-HUBERMAN, 1998, p. 29).

Oscar BoeiraBordando no Jardim, 1934. Óleo sobre tela. 38 x 48 cm. Coleção Pinacoteca APLUB.

Oscar Boeira (1883-1943), pintor que nasceu e viveu em Porto Alegre entre o final do século XIX e a primeira metade do século XX, possui uma interessante produção artística - sobretudo retratos e paisagens em pinturas à óleo e desenhos à grafite e carvão - que o caracteriza como um dos mais relevantes pintores gaúchos do período. Mesmo possuindo uma produção limitada e tendo vendido apenas um quadro em vida, o artista se revela importante para o contexto local devido suas obras que apresentam uma estética inovadora e de referência para a arte gaúcha.

O artista que foi reconhecido pela crítica de Angelo Guido durante o I Salão de Outono, de 1925, já havia lecionado na Escola de Artes do Instituto de Belas Artes do Rio Grande do Sul, atual Instituto de Artes da UFRGS, entre 1913 e 1917, como professor de desenho figurado. Boeira inseriu-se no incipiente campo das artes no Estado participando de eventos e salões como o Salão de Artes, da Escola de Artes, de 1929, a Exposição do Centenário Farroupilha, de 1935 e o I Salão do Instituto de Belas Artes do Rio Grande do Sul, ocorrido em 1939.

Transitando entre aspectos formais e tendências modernizadoras, as telas e desenhos do artista mesclam traços acadêmicos e um pensamento mais arrojado e livre na forma de pintar. No retrato Bordando no Jardim (1934) percebemos as demarcações dessas tendências, assim como referências do período em que Oscar Boeira estudou no Rio de Janeiro, que seguem presentes ao longo de sua carreira. Por conta do emergente cenário das artes em Porto Alegre no início do século XX, o artista partiu para uma temporada de estudos no Rio de Janeiro, na Escola Nacional de Belas Artes, entre 1909 e 1911. Para o ingresso iniciou-se com Rodolfo Amoedo e na Escola foi aluno de Eliseu Visconti, sendo esse período de grande influência ao longo de toda sua trajetória.

Uma moça sentada em uma poltrona posta à sombra, em um jardim, bordando, revela traços importantes presentes na pintura de Oscar Boeira. Nessa tela, o artista se preocupa em imprimir luz à cena, os reflexos do sol presentes no vestido e no chapéu da moça referenciam as técnicas estudadas com Visconti. Os traços e as cores vivas eleitas por Boeira nos remetem ao impressionismo, incorporando tons luminosos a tela. O artista sintetiza questões formais do movimento e os funde em elementos próprios. Sobre Visconti e Boeira, Pieta (1998, p. 130) afirma:

Ambos introduzem no Brasil, e no sul do Brasil, procedimentos, em princípio, impressionistas, embora sem a noção e a pureza precisa do estilo como era pensado na Europa: calcado nos elementos científicos da nova visão da luz e sua formação, desde um prisma solar desdobrado num divisionismo de cores, tons em seus complementos, feitos contornos imprecisos pela presença da atmosfera. A cor, nessa luz, é mesclada a tendências locais e regionais. O que poderia se dizer, um impressionismo fora de lugar, mas cumpridor dessa renovação, e tendo, bem por isso, um processo artístico paradoxal e original. 

Uma densidade emocional que geralmente toma os desenhos e as telas de Boeira não é tão presente nessa pintura, porém um tom intimista no trabalho é perceptível através da temática e das manchas de tinta aparentes, principalmente no fundo da tela, onde se fundem no jardim florido detalhes nas cores azuis, lilases e rosas, formando um efeito visual marcante. Libertando-se de seu maior contato com a vertente acadêmica nessa pintura desliga-se de certa forma do desenho, prezando delineações por cores e massa pictórica. As texturas e vibrações tonais enriquecem a cena, resultando em uma atmosfera de contrastes e luminosidade. As inovações, ainda que limitadas e incipientes, demarcam a obra.

A pintura en plein air [1] também foi eleita em trabalhos feitos pelos artistas Angelo Guido e Luis Maristany de Trias no Sul nesse período. Boeira adota uma paleta de cores vivas e uma pincelada densa, carregando suas telas com gestualidade e cor. Avancini, em seu ensaio sobre o pintor, destaca o tom intimista presente nas obras do artista. O espaço e as figuras das telas de Boeira encontram-se sempre imbuídos em um contorno espacial delimitado de forma envolvente e pessoal. Sobre Bordando no Jardim, pontua Avancini (2004, p.3):

 

O recurso ao retrato no jardim tenta unificar tanto o senso de espaço e de cor ao jardim, como produzir a intimidade do que vemos, representando pela concentração das figuras femininas em algumas tarefas domésticas, ou que lhes são atribuídas pela cultura de então. O lugar do jardim é um pequeno microcosmo para uso pessoal e contínuo da natureza. Verdadeiro substituto de uma natureza mais ampla e ainda intocada pelo homem.

A cena de mulheres dedicando-se ao trabalho manual, principalmente a costura, foi tema de relevantes obras de pintores europeus e também de Visconti. A tela de Boeira nos remete assim a outras duas pinturas, também à óleo, que trazem aspectos em comum. A primeira delas é Springtime (1872), do pintor Claude Monet, e traz a cena de uma mulher sentada à sombra de uma frondosa árvore, lendo. Na pintura destacam-se os raios de sol que perpassam as folhas da árvore e incidem no vestido da mulher retratada dando um efeito de luminosidade e um tom de lirismo a tela. Assim como em Jardim de Luxemburgo (1905), tela em que Visconti pintou mulheres no jardim parisiense, sentadas sob as sombras das árvores, a costurar, sendo observadas por uma menina, que atenta à execução artesanal procura aprender. A obra que participou do Salon de la Société Nationale des Beaux-Arts de 1906, em Paris, é valorizada por uma paleta que elege cores vivas que contrastam, a beleza e a textura dos tecidos, assim como uma intensa luminosidade atmosférica que imprime a presença de luz na composição. Elementos esses que aparecem em várias pinturas de Visconti.

Claude MonetSpringtime, 1872. Óleo sobre tela. 50 x 65,5 cm. Coleção Walters Art Museum.

Eliseu Visconti. Jardim de Luxemburgo, 1905. Óleo sobre tela. 33,5 x 49 cm. Coleção particular. 

Dessa forma as duas obras citadas nos levam a Bordando no Jardim, de Boeira que, para além da temática, permeiam as referências impressionistas nas técnicas e detalhes, desde a prática da pintura en plein air até a vivacidade da paleta de cores e os traços densos. Remetendo-nos assim, a questões levantadas pelo historiador da arte Georges Didi-Huberman (2011), que salienta a busca da riqueza presente nas imagens, interna aos objetos de análise. A partir do ponto de vista do autor, percebemos algumas temporalidades que se entrelaçam. Remontando o tempo das imagens percebemos que Boeira mesmo não tendo “bebido diretamente das fontes impressionistas europeias”, acaba por absorver suas referências a partir do período de estudos com Visconti.

     

Bohns (2005) percebe na pintura de Oscar Boeira “um acúmulo de material pictórico, uma densidade de cor, que não existe na obra de outros pintores, seus conterrâneos, em atividade no mesmo período”. Ainda Pieta (1998), aponta que Boeira, dentre seus contemporâneos no período em que produziu, “foi moderno na região, por investir contra a tradição e por introduzir novos expedientes pictóricos num código acadêmico, capaz de instaurar uma nova matriz visual”. Dessa forma compreendemos que o artista gesta um novo conceito de arte no Sul, mesmo que ainda não se possa falar de um modernismo presente no período, pois esse só vai se refletir no Sul na década de 1940 [2]. Pieta (1998, p. 130) destaca:

 

Boeira, é, portanto, uma síntese de outras adesões formais, quando entrelaça desses momentos, do geral à sua fusão particular. Começa acadêmico, calcado nas evocações da região, adotando a estrutura dessa escola inda vigente no Rio, onde se inicia – mas a submete como pintura e sem concessões. Pela via do realismo, um das fontes de originalidade do Sul, como Pedro Weingärtner, chega a sua própria experiência para-impressionista, onde assim permanece, alternando níveis e graus. Incontido apenas no olho, como queria Monet, vai além dessa imanência visual, sem prescindir dela. Deixa-se invadir por um intimismo, onde preenche espaços aéreos e atmosferas com formas soltas sobre a cor básica e elaboradíssima que, para ele, funda o mundo. Nessa cor, inscreve signos esparsos e arabescos, como comentário aberto e efusivo. Usa de uma pincelada miúda, espécie de pontilhismo luminoso, ora produto direto das divisões tonais em si, apenas pictóricas, ora acrescidas de uma poética lírica, se entendermos por lirismo a qualidade desse gênero, marcado pelo subjetivismo sentimental e traduzido por um máximo de elementos formais musicalmente organizados e harmonizados, aqui até o idealismo.

Sem a intenção de enquadrar o artista em um estilo artístico, percebemos que em um contexto e período diferentes os sintomas sobrevivem e regressam constantemente, como no caso de Bordando no Jardim, com seus nuances de luz, sombras e cores. Propõe-se assim, pensar a obra de Oscar Boeira além de seu período, trazendo aspectos fora de seu contexto, para melhor compreender os elementos que fazem parte das obras desse relevante artista gaúcho pouco estudado pela historiografia da arte brasileira.

REFERÊNCIAS

AVANCINI, José Augusto. A pintura de paisagem de Oscar Boeira (1883-1943). In: XXIV COLÓQUIO BRASILEIRO DE HISTÓRIA DA ARTE, 2004. Belo Horizonte. Anais... Disponível em: <http://www.cbha.art.br/coloquios/2004/anais/textos/44_jose_augusto_avancini.pdf>. Acesso em: 08 out. 2015.

 

BOHNS, Neiva Maria Fonseca. Continente improvável: artes visuais no Rio Grande do Sul do final do século XIX a meados do século XX. Tese (Doutorado em Artes Visuais) - Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2005.

 

DIDI-HUBERMAN, Georges. La historia del arte como disciplina anacrónica. Ante el imagen: ante el tiempo. In: Ante el tiempo: historia del arte y anacronismo de las imágenes. Bueno Aires: Adriana Hidalgo, 2011. p. 27-97.

 

______. A inelutável cisão de ver. In: O que vemos, o que nos olha. São Paulo: Editora34, 1998. p. 29-36.

 

KERN, Maria Lúcia Bastos. Les Origines de la Peinture “Moderniste” au Rio Grande do Sul – Bresil. 1981. Tese (Doutorado em Artes Visuais) - Université de Paris I Pantheon Sorbonne, Paris, 1981.

 

PIETA, Marilene Burlet. Oscar Boeira: um pintor com luz própria. In: VEECK, Marisa. Projeto Caixa Resgatando a Memória, 1998. p. 120-39.

 

ROSA, Fernanda Soares. Luz e sombras de Oscar Boeira. Monografia (Bacharelado em História) – Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas – Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2015.

 

TREBBI, Yolanda. Oscar Boeira: uma vida diferente. Porto Alegre: Rittmann, 1971.

 

NOTAS

[*] Historiadora e Professora de História, formada pela PUCRS. Dedicou-se em sua monografia de conclusão do bacharelado a investigar a trajetória e a produção artística do pintor gaúcho Oscar Boeira. (voltar ao texto)

[1] Expressão francesa que designa ao ar livre. É usada para descrever a técnica de pintura ao ar livre propriamente dito, não feita em atelier ou estúdio. A Escola de Barbizon, assim como os pintores impressionistas – como Claude Monet, Camille Pissarro e Pierre-Auguste Renoir – produziram muitas obras ao ar livre, dando grande ênfase à pintura en plein air. (voltar ao texto na nota 1) 

[2] No Rio Grande do Sul o Modernismo vai adentrar o campo das artes, efetivamente, somente na década de 1940: “O modernismo só começa a se difundir de fato no RGS após o Estado Novo e a 2ª Guerra Mundial, época em que a sociedade rio-grandense passa por um processo de modernização gerado pelo crescimento industrial e comercial, e o consequente fortalecimento econômico” (KERN, 1992. p. 51). (voltar ao texto na nota 2)

COMO CITAR ESSE TEXTO

 

ROSA, Fernanda Soares. Bordando no Jardim, de Oscar Boeira. HACER - História da Arte e da Cultura: Estudos e reflexões, Porto Alegre, 2016. Disponível em: <http://www.hacer.com.br/#!bordandonojardim/gq73g>. Acesso em: [dia mês. ano]