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Reflexões sobre Uma e Três Cadeiras, de Joseph Kosuth

Joseph Kosuth (1945- )

Uma e Três Cadeiras, 1965

Cadeira de dobrar de madeira, reprodução fotográfica da mesma cadeira e ampliação fotográfica da entrada do dicionário do tremo "cadeira"; cadeira: 82,2 x 37,8 x 53 cm, painel fotográfico: 91,5 x 61 cm, painel de texto: 61 x 62,2 cm

The Museum of Modern Art (MoMA), New York

Joseph Kosuth é um dos principais teóricos e um artista emblemático para a arte conceitual, movimento artístico surgido no século XX e que atingiu seu auge nas décadas de 1960 e 1970. Nascido em 1945 em Ohio, USA, Kosuth ajudou a estabelecer muitos dos fundamentos teóricos da arte conceitual e produziu uma obra representativa dentro deste pensamento que explora a natureza da arte. Entre sua produção como artista, é muito conhecida sua série de obras nas quais Kosuth reúne um objeto real, a fotografia do mesmo objeto e a definição textual deste objeto, sendo que, dentro desta série, talvez a obra mais difundida e reproduzida seja Uma e três cadeiras (1965). A ideia de Kosuth é aplicar a mesma fórmula a uma série de objetos, tais como: abajur, pá, chapéu, martelo, relógio, vassoura, entre outros. A regra parece ser sempre a mesma: ao centro da composição, coloca-se o objeto real, à direita (considerando um espectador de frente para a obra) a definição da palavra que descreve este objeto retirada de um dicionário e, à esquerda, a imagem bidimensional frontal do mesmo objeto em escala real.

Do ponto de vista dos preceitos da arte conceitual, pode-se fazer algumas considerações sobre a série.  O artista nos apresenta, lado a lado, o real, sua imagem e seu conceito, parecendo fazer assim uma síntese visual de princípios básicos da arte conceitual, ou seja, uma arte que coloca a ideia em pé de igualdade com a obra formal clássica. A ideia é o conceito, ou seja, as definições do dicionário, colocadas como parte constituinte de uma mesma realidade (uma e três), ou seja, é considerada tão parte de uma concepção maior do objeto quanto o próprio objeto real e a sua imagem bidimensional podem sê-lo. Da mesma forma, o conceito de arte, ou a ideia de arte, é tão arte, para os conceitualistas, quanto qualquer representação artística convencional, representada pela imagem bidimensional clássica. Uma e três, portanto, significaria o universo expandido da arte em relação ao considerado até então: o mundo real e sua representação clássica. Acrescente-se a eles, o mundo dos conceitos, ou das ideias, tão parte da totalidade da existência quanto os outros dois, sendo que as manifestações artísticas referentes a este mundo também são arte, pois integram uma mesma unidade (uma e três). Nesse aspecto, mesmo que não seja o melhor exemplo de arte conceitual propriamente dita, ainda assim essa série de Kosuth parece ser das obras que melhor exemplifica e sintetiza os pressupostos da arte conceitual.

 

Impossível aqui não lembrar de Platão e do seu mundo das ideias, ou mundo das formas perfeitas e abstratas. Platão concebia a existência de duas realidades distintas: a realidade do mundo sensível e a realidade do mundo inteligível. O mundo sensível seria a nossa realidade, captada através de nossos sentidos, ou seja, o mundo material onde as coisas existem de maneira aparente e estão sempre em estado de transformação (devir). O mundo inteligível, por sua vez, é o mundo das ideias, mundo eterno e imutável, onde residem as formas perfeitas e imateriais. Somente pela razão e pelo pensamento o homem poderia relembrar seu conhecimento destas formas perfeitas, pois ele já o traria dentro de si, uma vez que elas teriam sido a base da criação do mundo sensível, ou seja, o mundo de formas perfeitas teria precedido o mundo sensível que, assim, procuraria imitar suas formas e não passaria de uma cópia imperfeita deste mundo das ideias. Dessa forma, o mundo das ideias é o mundo de verdades ou de essências, enquanto o mundo sensível (a realidade), seria um mundo de aparências e de cópias imperfeitas. Em sua obra, Platão condena os artistas clássicos gregos, pois eles representam a partir da realidade, a partir de um ponto de vista, argumentando que estão elaborando cópias das cópias e afastando ainda mais os cidadãos da verdade, o seja, do mundo das ideias. Tal situação fica perfeitamente ilustrada na série de Kosuth, considerando não apenas a aparência óbvia da fotografia (subordinada a um ponto de vista), mas também ao fato de que a representação bidimensional do objeto é a que se encontra mais afastada da definição do dicionário, ou seja, do mundo das ideias.

Neste ponto, é imprescindível abordar a questão da linguagem. Tomando como exemplo a obra Uma e três cadeiras (1965), percebe-se que tanto o objeto real quanto sua representação bidimensional possuem similaridade formal, ou seja, estão relacionados a uma mesma configuração de formas que define a aparência do objeto e, por consequência, determina também sua representação fotográfica. Por exemplo, a cadeira real tem o assento quadrado, o que determina que sua fotografia (sua imagem) mostre um assento quadrado em perspectiva. O painel do conceito, entretanto, não mostra imagem alguma e tampouco se refere ao formato da cadeira. Platão referia que o mundo das ideias é um mundo de formas imateriais, abstratas e, de fato, a ideia de uma cadeira não poderia referir ao formato de uma cadeira específica, pois tal objeto ideal poderia ser de infinitas formas. A ideia de cadeira, sua essência, só pode ser pensada e este pensamento, em tese, só poderia ser comunicado racionalmente através de palavras e, portanto, através da linguagem. Dessa forma, o conceito se expressaria racionalmente pela linguagem e isso é visível na obra através da definição de dicionário impressa. No mundo das ideias, portanto, o objeto real se desmaterializa, perde suas particularidades formais vira um conceito, não dele mesmo como uma unidade individual, mas de uma categoria de objetos similares ao qual ele pertence. O conceito se ocupa de essências, não de particularidades. A cadeira real participa de uma ideia de cadeira, de uma forma perfeita de cadeira que, no entanto, parece não ter forma alguma, ou ter todas as formas, ou melhor dizendo, ter a forma da linguagem.

Joseph Kosuth (1945- )

Relógio (Um e Cinco) - Versão inglês/latim, 1965 (versão da exposição de 1997)

Relógio, fotografias e texto impresso sobre papel, 610 x 2902 mm

Tate, London

E é exatamente aqui que a relação entre objeto e conceito começa a ficar problemática e a arbitrariedade com que estabelecemos essas relações começa a ficar evidente. Para observar isso, basta ver o exemplo, ainda dentro desta série de Kosuth, da obra Relógio (Um e Cinco) (1965). Nessa obra, Kosuth optou por associar as definições de três palavras, time (tempo), machination (maquinação) e object (objeto) para dar conta do conceito do objeto da obra, que costumamos associar a um relógio (nome mantido no título), contrapondo essas três definições ao objeto real e à sua fotografia. Essa decisão parece problematizar a regra da série como um todo, uma vez que pode-se considerar que o dicionário certamente oferecia uma definição para a palavra relógio, ainda que a quantidade de sinônimos em inglês possa ter motivado Kosuth a utilizar os três termos como forma a tentar ser mais abrangente. Talvez tenha sido abrangente demais, pois os três termos utilizados tampouco formam um conceito restrito a um relógio pois também poderiam corresponder a, por exemplo, um cronômetro. O que esta obra específica ressalta, entretanto, é a fragilidade da relação entre a palavra e o objeto. Kosuth fragmentou o objeto em três palavras e fica a pergunta: por que não repetir este expediente nas outras obras? Cadeira não poderia ser assento, encosto e descanso, por exemplo? Martelo não poderia ser ferro, cabo e impacto? A naturalidade com que relacionamos determinados objetos a seu nome conceitual faz imaginar que toda a realidade é assim: tem um correspondente perfeito no mundo das ideias, pronto para ser contraposto a sua cópia imperfeita no mundo sensível. O relógio de Kosuth parece nos provar que nem tudo é ou precisa ser assim.

 

De repente, a relação entre o conceito de relógio e o objeto relógio não serviu para Kosuth. E se foi assim para o relógio, não poderia ter sido assim para os outros objetos? Se foi necessário fragmentar o objeto relógio em três conceitos, isso não poderia ser feito também para os outros objetos? O exemplo do relógio nos prova que a passagem do objeto para o conceito é arbitrária porque ela nos leva para algo externo ao objeto, que não diz mais respeito a ele, diferente da relação do objeto com a imagem bidimensional, pois esta última é gerada necessariamente a partir do objeto. A palavra relógio diria tanto a respeito do objeto colocado ao centro da composição quanto as três palavras escolhidas: tempo, maquinação e objeto. São abstrações criadas para descrever e comunicar realidades, talvez já confundidas com as próprias realidades pelo nosso vício na linguagem. Assim como o conceito relógio não serviu para corresponder ao objeto relógio usado por Kosuth, há que considerar-se que, tampouco, os outros conceitos correspondem ou descrevem integralmente os objetos nas outras respectivas composições. Esses conceitos são apenas generalizações com as quais nos habituamos a classificar determinadas classes de objetos. O uso parece natural devido ao nosso vício na linguagem em estabelecer rápida e mecanicamente a correspondência, por exemplo, entre a palavra cadeira e o objeto usado por Kosuth na respectiva obra. No entanto, outros conceitos poderiam estar associados ao objeto (como no caso do relógio) e haveria igualmente uma transposição do objeto ao mundo conceitual sem utilização do conceito óbvio, gerando um sentido satisfatório de entendimento. Na verdade, não existiria jamais uma maneira de transposição ou descrição total do objeto ao mundo conceitual, isto é, ao mundo das palavras. Não há como existir uma correspondência integral, somente uma síntese das suas características gerais, das suas finalidades, ou, em uma palavra, da sua essência. Essa essência, no entanto, fala apenas das generalidades, tanto quanto a associação de outros conceitos pode fazê-lo. O conceito de relógio descreve o objeto relógio de maneira apenas diferente que os três conceitos (tempo, maquinação e objeto) associados o fazem, talvez de maneira mais utilitária para as necessidades de quem consulta um dicionário, mas inadequadas para uma obra de arte. Da mesma forma, pode-se considerar que a associação de outros termos poderia dar conta do conceito cadeira tão bem quanto ele próprio. Kosuth não considerou assim, mas não impede que se cogite a hipótese. Isso porque não existe uma relação natural a priori entre aquele objeto e a palavra cadeira. Essa relação, embora nos pareça muito natural, foi estabelecida arbitrariamente por Kosuth e nós a aceitamos sem pensar devido ao nosso vício na linguagem. Talvez o próprio Kosuth tenha pensado em nos chamar a atenção sobre isso ao fragmentar o conceito de relógio.

René Magritte (1898-1967)

The Treachery of Images (This is Not a Pipe), 1929

Oil on canvas, 60.33 x 81.12 cm

Los Angeles County Museum of Art

Kosuth, de certa forma, parece seguir o caminho oposto de René Magritte (1898-1967), que com sua célebre pintura A traição das imagens, pintou um cachimbo e escreveu logo abaixo: “isto não é um cachimbo”. Magritte não parecia querer agregar dois cachimbos em um só, o real e o pintado. Ao contrário, deixou claro que o cachimbo pintado não era um cachimbo, era uma pintura. Temos aqui uma ruptura entre o real e a representação, que parecem ser, na opinião de Magritte, existências de duas esferas diferentes. Kosuth parece não pensar assim e agregaria ainda um terceiro cachimbo a esta equação: o cachimbo conceitual, considerando que tudo isso faz parte de uma única realidade: uma e três. Essa abordagem de Kosuth diz muito sobre os próprios pressupostos da arte conceitual que, de resto, diferiam muito dos da arte moderna representada por Magritte. Enquanto Magritte parece querer isolar a arte e estabelecer sua independência e especificidade, Kosuth parece querer criar um ambiente cultural expandido no qual a arte faça parte de um todo maior. De qualquer forma, a abordagem de Magritte permite que se faça uma leitura na qual o status de real só cabe ao objeto e nada mais, não podendo ser aplicado às suas representações visuais. Se o pensamento de Magritte for seguido à risca também para as representações conceituais, se chegará à conclusão semelhante, pois também são abstrações oriundas do real (embora Platão imagine um mundo de formas perfeitas que tenha precedido o real), concluindo-se que só existe um objeto real. A pintura não é um cachimbo e tampouco o objeto real é um cachimbo. Cachimbo é uma palavra, um conceito com o qual costumamos chamar objetos semelhantes àquele que ali está. O mesmo se aplica à cadeira. No entanto, Kosuth prefere o caminho inverso e soma ao objeto todas as manifestações humanas, formais e conceituais, formando uma grande realidade na qual junta o mundo natural e o mundo cultural. Uma e três. Uma e cinco. Uma e quantas forem necessárias.

COMO CITAR ESSE TEXTO 

SILVA, Marcelo de Souza. Reflexões sobre Uma e Três Cadeiras, de Joseph Kosuth. HACER - História da Arte e da Cultura: Estudos e Reflexões, Porto Alegre, 2019. Disponível em: <http://www.hacer.com.br/kosuth>. Acesso em: [dia mês. ano].