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Creative Commons 4.0 Internacional (CC BY-NC 4.0) 

Por culpa alheia:

fotografias de Lola Álvarez Bravo

 

Lola Álvarez Bravo (México, 1903-1993)

Por culpa alheia, 1945

Impressão de gelatina de prata; suporte primário: 19,5 x 24 cm, imagem: 19,5 x 24 cm

Centro para Fotografia Criativa, Universidade do Arizona, Tucson

A mulher indígena, nativa da região do México, prostra-se contra uma grade enquanto olha para nós através da câmera fotográfica que a captura em imagem. Os cabelos desgrenhados da moça, sem dar-nos um motivo claro de por que estão daquela maneira, destoam da típica roupa indígena que veste e das jóias que usa, mostrando cuidado consigo e vaidade. A sua expressão é pesada, quase de agonia, parece que há lágrimas lhe vertendo dos olhos – ou apenas o brilho é muito forte – e aparentemente tenta dizer algo a quem a observa pela maneira como se projeta, com a boca entreaberta. Imediatamente penso que a mulher sofreu alguma violência. Mas é possível também que seja uma vendedora de rua com frio, enrolada em cobertor, moça simples, que passa o dia trabalhando para cuidar dos filhos ou familiares. De qualquer forma, a imagem, Por culpa alheia, de 1945, não deixa de ser uma denúncia feita pela artista, expondo a situação das pessoas humildes do México. Apesar da estética pessimista que Lola Álvarez Bravo (1903-1993) explora na medida em que busca, muitas vezes, mostrar as condições tristes dos nativos que, na ressaca da Revolução Mexicana do início do século XX, sofrem e passam fome na sua terra, consegue, por meio de diversos trabalhos, tratar dessas questões com empatia e sutileza. Ela não ignora a condição do outro e se coloca em seu lugar, buscando entender ou interpretar suas próprias imagens para chegar a uma ideia do que aquela pessoa precisa, ou o que ela vive em seu cotidiano, e concretiza esse processo nos títulos de suas obras.

 

Essa empatia existe, possivelmente, por causa da própria história de vida da artista, que foge do parâmetro de uma sociedade patriarcal tradicional, e se caracteriza como um exemplo de independência financeira e emocional da mulher em meados do século XX. Órfã aos treze anos de idade, a artista foi morar na Cidade do México com um meio irmão mais velho, cuja família acabou a colocando em um colégio interno de ensino tradicional. Em ambas as casas, Lola Álvarez Bravo confessa ter recebido pouco afeto (MIRKIN, 2008, p. 155). Em 1925, casa-se com seu amigo de infância Manuel Álvarez Bravo (1902-2002) que, no momento, trabalhava como contador, mas viria a se tornar um dos fotógrafos artísticos mais destacados e reconhecidos do México, influenciando em definitivo o futuro profissional da esposa. No princípio, quando Manuel passa a realizar suas primeiras fotografias, Lola Álvarez o ajudava com tarefas básicas, como mesclar os químicos, revelar, copiar e imprimir as imagens. Com o tempo, compartilhando o equipamento fotográfico, a jovem esposa sentiu a necessidade de fazer suas próprias fotografias sem a interferência do marido, não mais ser apenas assistente, o que causou irritação em Manuel. Acredita-se que por essas complicações o casal teria se separado em 1934, e se divorciado, finalmente, em 1948. Lola Álvarez Bravo, nos anos 1930, passa a sustentar seu filho independentemente com o dinheiro que ganha, primeiro, como arquivista do governo e, mais tarde, como fotógrafa profissional para a revista El Maestro Rural, publicada pela Secretaria de Educação Pública. A artista começa a receber comissões importantes para diversas revistas ilustradas, e inclusive passa a trabalhar para o Instituto Nacional de Belas Artes e Literatura, documentando obras de arte, produções de teatro, dança e eventos oficiais, além de organizar várias exposições de arte. Sua carreira profissional foi plenamente desenvolvida ao longo de quase cinquenta anos, sempre conciliando seus trabalhos comissionados e suas obras mais pessoais, realizadas para seu próprio prazer e expressão estética (MIRKIN, 2008).

Lola Álvarez Bravo

Auto-retrato, ca. 1950

Impressão de gelatina de prata; suporte primário: 27,9 x 35,1 cm, imagem: 24,3 x 28,5 cm

Centro para Fotografia Criativa, Universidade do Arizona, Tucson

A fotógrafa, da mesma forma que era valorizada e requisitada por seu trabalho, sofria discriminação por ser mulher. Não por ser artista, pois havia diversas artistas mulheres naquele momento, mas todas trabalhavam em casa, em seus ateliês. Já esta, andava pelas ruas da cidade com uma câmera: “Eu era a única mulher andando por aí com uma câmera nas ruas e todos os repórteres riam de mim. Então eu me tornei uma lutadora” [1] (PACHECO, 1995). Como a própria artista afirmou em algumas entrevistas, as limitações sociais que inibem o desenvolvimento profissional da mulher são muitas. “Reais ou auto-impostas, depois de um longo processo de socialização através do qual incorporamos muitos dos preconceitos e normas consideradas próprias do gênero, as mulheres estão presas em seus próprios cárceres, entendidos como o âmbito doméstico ou como nossas próprias realidades e restrições psíquicas” (MIRKIN, 2008, p, 188) (ver figura abaixo). A independência que Lola Álvarez Bravo buscou para si reflete em sua preocupação e identificação com a classe mais humilde e marginalizada. A sua visão humanista também é fruto, claro, do ímpeto do renascimento artístico mexicano que se desenvolveu ao longo da primeira metade do século XX – o muralismo –, cujos protagonistas, como Diego Rivera (1886-1957), David Alfaro Siqueiros (1896-1974), Rufino Tamayo (1899-1991), Carlos Mérida (1891-1984), foram seus amigos durante toda a sua vida. A intenção artística de Lola Álvarez, segundo ela, era “Guardar e conservar a beleza da raça e fazer com que, perante a sua indigência, seu abandono, sua morte paulatina e terrível, sintam vergonha os causadores de todas suas misérias. Creio que sou obrigada a expor uma realidade pela qual todos nós somos culpados” [2] (PACHECO, 1995, p. 61).

 
 

Lola Álvarez Bravo 

Em sua própria cela, ca. 1950

Impressão de gelatina de prata; suporte primário: 20,2 x 22,2 cm, imagem: 18,4 x 21,2 cm

Centro para Fotografia Criativa, Universidade do Arizona, Tucson

A produção de Lola Álvarez Bravo, na verdade, abrange retratos de intelectuais e artistas da época, e até foto montagens, mas a abordagem social acaba se destacando, não só pelo seu teor crítico no terreno ético, mas também pela representação íntima e emotiva dos seus modelos. Nas obras O sonho dos pobres 1 e 2 (ver figuras abaixo), por exemplo, a fotógrafa representa a imagem mais cândida possível, o sono de uma criança, direcionando nossa atenção por meio do título da obra para a questão que se esconde nessa beleza, a condição humilde de quem dorme em cima de madeiras ou em meio aos calçados que estão sendo vendidos na rua ao invés de uma cama. Sua intenção ao trabalhar o tema da miséria não é ferir, mas sim ressaltar o estado das coisas.

Lola Álvarez Bravo

O sonho dos pobres, 1935

Impressão de gelatina de prata; suporte primário: 25,2 x 20,1 cm, imagem: 21 x 17,7 cm

Centro para Fotografia Criativa, Universidade do Arizona, Tucson

Lola Álvarez Bravo

O sonho dos pobres 2, 1949

Impressão de gelatina de prata; suporte primário: 20,4 x 25,3 cm, imagem: 17,1 x 23,6 cm

Centro para Fotografia Criativa, Universidade do Arizona, Tucson

É recorrente na produção de Álvarez Bravo, além do tema social em geral, a preferência pela representação de mulheres em seus labores, tanto rurais como urbanos, as interpretando de maneira tão sensível que acaba transformando práticas cotidianas banais em ícones de sacrifício e de trabalho duro das classes marginalizadas, ressaltando, principalmente, a força do gênero. Suas imagens de indígenas, entre elas Por culpa alheia, têm o poder de individualizar e dar identidade à pessoa, ainda que de maneira pessimista, uma vez que sua temática enfatiza a exploração, a maldade e a injustiça a que as mulheres indígenas eram submetidas em pleno século XX, e sua consequente dor e sofrimento. A imagem da moça encostada na grade denuncia a dor e a solidão do gênero frente a sua situação social. A artista, com efeito, expressa clara e definidamente uma consciência avançada e visionária de sua própria identidade de gênero, rompendo tradições iconográficas e estereótipos do feminino, fortemente estabelecidos no imaginário coletivo.

 

 

REFERÊNCIAS

 

FERRER, Elizabeth. Lola Álvarez Bravo. Aperture, 2006.

 

MIRKIN, Dina Comisarenco. La Representacóin de la Experiencia Femenina en Tina Modotti y Lola Álvarez Bravo, La Ventana, n. 28, 2008.

 

PACHECO, Cristina. Lola Álvarez Bravo: el tercer ojo. In: LA LUZ de México: entrevistas con pintores y fotógrafos. México, FCE, 1995.

 

 

NOTAS

 

[*] Bacharela em História da Arte pelo Instituto de Artes da UFRGS. Atua como curadora independente e editora do periódico Ícone: Revista Brasileira de História da Arte. (voltar ao texto na nota de autor)

 

[1] Tradução livre de: “I was the only woman fooling around with a camera in the streets and all the reporters laughed at me. So I became a fighter.” (voltar ao texto na nota 1)

 

[2] Tradução livre de: “Guardar y conservar la belleza de la raza y hacer que ante su indigencia, su abondono, su muerte paulatina y terrible sientan vergüenza los causantes de todas sus miserias. Creo que estoy obligada a exponer una realidad de la que todos somos culpables”. (voltar ao texto na nota 2)

 

COMO CITAR ESSE TEXTO

 

DOMBROWSKI, Liana Schedler. Por culpa alheia: fotografias de Lola Álvarez Bravo. HACER - História da Arte e da Cultura: Estudos e Reflexões, Porto Alegre, 2016. Disponível em: <http://www.hacer.com.br/#!lola-alvarez-bravo/x93p0>. Acesso em: [dia mês. ano].