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O Rapto de Ganimedes.

Uma releitura do mito clássico através da arte românica

Fig.1. O rapto de Ganimedes, c.1120-32,

escultura em pedra,

capitel românico em coluna da nave da Basílica de Ste. Madeleine, Vézelay, França.

A escultura presente em um dos capiteis da nave da igreja de Ste. Madeleine, em Vézelay, região da Borgonha, na França, remonta ao início do século XII, e representa o rapto de Ganimedes por Zeus (ou Júpiter), disfarçado sob a forma de uma águia.

 

Escolhi esta imagem com o objetivo de tentar demonstrar como determinada representação que teve sua origem em um mito pagão da Antiguidade Clássica foi re-significada pela Igreja, durante a Idade Média, especificamente no período denominado “românico”.

 

Para poder falar mais detalhadamente sobre a imagem, farei alguns comentários iniciais sobre o mito e sua iconografia, e também sobre algumas características da arte românica.

O Mito de Ganimedes

 

Sabemos que Zeus foi um grande amante, tendo conquistado muitas deusas, mulheres mortais e pelo menos um homem, Ganimedes, “o mais belo dos mortais”, da casa real de Tróia, foi amado pelo deus[1]. O jovem, que mal havia passado da puberdade, pastoreava rebanhos no Monte Ida quando Zeus (disfarçado em águia) o raptou e o levou para o Olimpo. Lá, Ganimedes se tornou o “copeiro dos deuses”, encarregado de servir o néctar durante os encontros entre os imortais. Para compensar o pai do jovem, Zeus mandou-lhe cavalos divinos de presente, além de assegurar a imortalidade de Ganimedes, transformando-o na constelação de Aquário.

Fig 2. Zeus conquistando Ganimedes., c. 475-425, cerâmica ática de figuras vermelhas,

Museo Nazionale di Archaeologico Spina,

Ferrara, Itália.

 

Vejamos como Homero se refere ao rapto de Ganimedes, na Ilíada (XX, 231-235):

De Tróis provieram três filhos, de forma e intelecto perfeitos:

Ilo, depois deste, Assáraco e, alfim, Ganimedes deiforme,

que entre os mortais foi, sem dúvida, o herói de mais bela

aparência.

Os deuses a este raptaram, por causa de sua beleza,

para que a Zeus de copeiro servisse e vivesse no Olimpo.

(HOMERO, 1996, p. 312)

A iconografia sobre o mito de Ganimedes está presente desde a Grécia Antiga, tendo sido representada de maneira particular na Idade Média, como veremos, e durante o Renascimento, onde juntamente com a recuperação e adaptação dos cânones da arte da antiguidade clássica, alcançou seu apogeu em meados de 1500, quando o Concilio de Trento restringiu o uso dos termos pagãos e condenou a nudez artistica, entre outras coisas.

 

Conforme aponta James M. Saslow (1989), o mito de Ganimedes foi associado, desde a Antiguidade, ao erotismo e, na Idade Média, a palavra “ganimedes” foi utilizada para designar um objeto de desejo homossexual[2]. Porém, segundo o autor: "Ganimedes serviu mais do que se tem querido admitir, como um veículo artístico para interesses eróticos ou sexuais, e as mudanças sofridas em sua popularidade, forma e iconografia estão intimamente relacionadas com as mudanças de atitude em relação ao erotismo e ao homoerotismo." (SASLOW, 1989, p. 14)

 

Breves considerações sobre a arte românica

 

Janson (1996) afirma que o estilo denominado de românico surgiu mais ou menos na mesma época em toda a Europa Ocidental e que, apesar de apresentar diferenças regionais, possui algumas características centrais, permitindo a sua unicidade como um “estilo”. Vários fatores contribuíram para o desenvolvimento da arte românica: a emergência do cristianismo, que durante a metade do século XI havia triunfado em toda a Europa; a cessão das ameaças de invasões externas; o crescente entusiasmo religioso, que culminou com as Cruzadas (a partir de 1095); e a abertura das rotas comerciais do Mediterrâneo, com o consequente desenvolvimento do comércio e das cidades urbanas.

 

Particularmente na arquitetura, as igrejas foram se tornando maiores e mais imponentes, com tetos centrais abobadados e com exteriores extremamente decorados, tanto com ornamentos arquitetônicos, como com esculturas. De acordo com Gombrich (2008), foi na França que as igrejas românicas começaram a ser “decoradas” com esculturas, com o objetivo bem claro de disseminar os ensinamentos da Igreja, ou seja, como uma forma de comunicação entre Deus e os fieis.  Deste modo, a escultura vai assumir uma íntima relação com a arquitetura, inserindo-se no seu espaço como um elemento complementar, e dedicando-se, principalmente, ao ensinamento de cenas bíblicas, através de relevos em pedra, compreensíveis ao crente leigo. Conforme Gombrich (2008), as esculturas não tinham nada do aspecto natural, gracioso e leve das obras clássicas; o que impressiona nelas é sua “solenidade maciça”. 

A fachada das igrejas, o seu portal, principalmente o tímpano (localizado sobre a entrada), deveria mostrar o maior impacto visual, apresentando geralmente cenas do Apocalipse ou do Juízo Final.

 

Essas cenas, dentro do espírito do Deus vingativo presente nas escrituras do Antigo Testamento, são povoadas não só por figuras bíblicas e anjos, mas também por criaturas monstruosas, que deveriam ser vistas e não mais esquecidas, tais como demônios e seres disformes.

O interior das igrejas também expõe relevos escultóricos, principalmente nos capitéis das colunas, onde a profusão de figuras fantásticas vai atingir o máximo do grotesco. Os temas dos capitéis são diversos e apresentam decorações de inspiração classicista, cenas da Antiguidade, da Bíblia e também temas profanos, como no caso desta imagem que estou analisando.

 

Ao lado, fotografia da Igreja de Ste. Madeleine (Basílica de Vézelay), onde está localizado, em sua nave, o capitel com a escultura do rapto de Ganimedes.

Fig. 3. Imagem da Basílica de Vézelay.

Fotografia de Holly Hayes.

Capturada em:

http://www.sacred-destinations.com/france/vezelay-church/photos/xti_0373p. Acesso em 27 jan. 2016.

O Ganimedes românico

 

Como vimos, no período denominado românico, qualquer coisa que fosse contra a moral da Igreja passou a ser representada em elementos menores dentro das grandes igrejas que foram construídas na época, geralmente nos seus capitéis e nos seus frontões. As relações sexuais entre pessoas do mesmo sexo também foram reprovadas pela Igreja e consideradas “pecado”.

 

Nesta escultura, em particular, o que parece estar ocorrendo é um exemplo de  tranformação de um mito pagão clássico em uma espécie de parábola (um exemplo para não  ser seguido, no caso), como objetivo de convencer as pessoas dos valores da moralidade cristã, conforme afirma Saslow(1999).

 

Esteticamente, notam-se algumas características que marcam a arte do período românico: a proporção entre as figuras é um fator secundário, sendo que as dimensões dependem mais da sua importância hierárquica e do espaço disponível para o relevo, do que da relação que elas possuem entre si na realidade; os corpos são delgados, os gestos são expressivos, e os diferentes elementos do relevo adaptam-se ao espaço arquitetônico, chegando mesmo a ser quase que amontoados de modo a caberem em pequenos espaços.

 

Com relação aos detalhes da imagem que estamos analisando, percebemos Zeus em forma de uma grande águia, erguendo o  menino Ganimedes, preso pelo seu bico, sendo que o jovem está vestido em roupas da época medieval (não está nu), e com uma expressão de pavor em seu rosto. Um detalhe interessante é a composição da figura da grande águia, que parece estar montada sobre uma espécie de chacal com a boca aberta mostrando os dentes numa atitude agressiva e assustadora.

 

No lado esquerdo, aparecem as figuras, provavelmente os pais do rapaz, com destaque para o pai representado com as mãos erguidas sobre a cabeça, e rosto também apavorado, como que protestando contra o fato que está ocorrendo. 

À direita, está representado um horrendo demônio que sorri maliciosamente, como se estivesse instigando e incentivando a ação. A arrepiante criatura demoníaca está fazendo uma careta, puxando os lados de sua boca com os dedos e parece estar mostrando a língua.

 

Conforme aponta Saslow (1999), este tipo de cena que mostra um repertório de gestos grotescos, foi elaborado a partir dos escritos do profeta bíblico Isaías, e tem o objetivo de mostrar certa perversidade sexual.

 

A mensagem parece ser bem clara: as pessoas que mantinham ou pretendessem manter relações sexuais com outras pessoas do mesmo sexo estariam sumariamente condenadas ao inferno e o demônio lá estaria, feliz (e assustador), esperando por elas.

Fig. 4. O rapto de Ganimedes (detalhe), c.1120-32,

escultura em pedra,

capitel românico em coluna na nave da Basílica de Ste. Madeleine, Vézelay, França.

REFERÊNCIAS

 

DOVER, Kenneth. A Homossexualidade na Grécia Antiga. São Paulo: Nova Alexandria, 1994.

 

GOMBRICH, Ernst H. A História da Arte. 16. ed. Rio de Janeiro: LTC, 2008.

 

HOMERO. Ilíada. 6. ed. Rio de Janeiro: Ediouro, 1996.

 

JANSON, H. W; JANSON, Anthony F. Iniciação à História da Arte. 2. ed. São Paulo: Martins Fontes, 1996.

 

SACRED DESTINATION IMAGES. Disponível em: http://www.sacred-destinations.com/. Acesso em 27 jan. 2016.

 

SASLOW, James M. Ganimedes en el Renacimiento: La homoxesualidad em el arte y em la sociedad. Madrid: Editorial NEREA, 1989.

 

_____. Pictures and Passions: a history of homosexuality in the visual arts. New York: Viking Penguin, 1999.

 

WILKINSON, Philip; PHILIP, Neil. Guia Ilustrado Zahar: mitologia. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2008.

 

NOTAS

 

[1] Faz-se necessário esclarecer que em algumas cidades da Grécia Antiga, principalmente na Atenas do século V a.C., eram muito comuns as relações sexuais e afetivas entre dois homens, geralmente entre um homem mais velho (erastes) e um jovem (eromenos). Para os atenienses esta era a forma de amor mais nobre e virtuosa existente e tinha a função de transformar os jovens em futuros cidadãos da polis, lembrando que a sociedade “grega” era predominantemente masculina e que a mulher não tinha espaço na vida pública. Para quem quiser aprofundar este assunto, aconselho a leitura da obra de Kenneth Dover, A Homossexualidade na Grécia Antiga. São Paulo: Nova Alexandria, 1994. (voltar ao texto na nota 1)

 

[2] É preciso destacar que os termos “homossexual” e “heterossexual” ainda não existiam; eles foram criados apenas no século XIX por diferentes discursos (principalmente médicos e higienistas), na tentativa de definir a homossexualidade como a forma “anormal” da sexualidade. (voltar ao texto na nota 2)