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O HACER - História da Arte e da Cultura: Estudos e Reflexões é uma publicação do Coletivo HACER sob a Licença

Creative Commons 4.0 Internacional (CC BY-NC 4.0) 

Toda nudez será castigada?

De acordo com a narrativa bíblica, os seres viviam nus no paraíso e era bom, era tranquilo, os corpos eram apenas repositórios de almas. Um dia, incitada pela serpente, Eva olhou diferente para a maçã, achou-a muito apetitosa e convenceu Adão a comê-la: “Então seus olhos abriram-se, e, vendo que estavam nus, tomaram folhas de figueira, ligaram-nas e fizeram cinturas para si.” (Gênese, 3, 7). Por terem desafiado Deus se alimentando do fruto proibido foram expulsos do paraíso e condenados a conseguir sua sobrevivência através do trabalho diário.

Parece que desde então os corpos tomaram contornos sinuosos nunca dantes navegados e, por isso mesmo, muito interessantes, aos olhos de artistas, mais sensíveis à beleza; nem seria necessário bússola, bastava apenas buscar aquela inerente ligação anterior ao pecado, ou então, o conhecimento adquirido através dele.

“Quando os homens começaram a multiplicar-se sobre a terra, e lhes nasceram filhas, os filhos de Deus viram que as filhas dos homens eram belas, e escolheram esposas entre elas.” (Gênese, 6, 1-2)

Nossa observação sobre o erótico, o pornográfico, o ambíguo e sobre as representações de nus (artísticos ou não) começará no Renascimento e seguirá até os dias atuais, embora este seja um tema que nasceu junto com o homem, delimitaremos um espaço de tempo no qual, apesar de possíveis castigos, a nudez sempre ultrapassou as rígidas regras e foi valorizada (ou foi usada para desvalorizar). Obviamente, não é possível esgotar em poucos parágrafos um assunto tão complexo e abrangente, por isso escolhemos apenas algumas obras e artistas para ilustrar nosso texto. 

Jan VAN EYCK (c.1390-1441)

Retábulo de Gand, 1432

Óleo sobre madeira, 146,2 x 51,4 cm (cada painel)

Catedral de São Bavão, Gand, Bélgica

As imagens que representam Adão e Eva, feitas por Van Eyck na parte interna do seu Retábulo de Gand, demonstram a nova concepção de arte que surgiu na Renascença e que, segundo Gombrich (2009), não visava imitar os clássicos antigos, pois os gregos objetivavam um modelo ideal de beleza e neste período o corpo humano é valorizado como é naturalmente: “Ele deve ter posto modelos nus à sua frente e pintou-os tão fielmente, que gerações mais tardias ficaram um tanto chocadas com tanta honestidade” (p. 236).

O antropocentrismo possibilitou ao homem duvidar dos dogmas da Igreja Católica e a partir da Reforma Protestante surgiram novas religiões, ou seja, novas opções de fé. O pensamento renascentista vai avançando na medida em que permite o questionamento de grandes verdades instituídas como, por exemplo, a substituição da visão geocêntrica pela heliocêntrica, torna-se um período de valorização dos conhecimentos do homem, embora coexistissem pensamentos híbridos, visto que apesar deste pretenso progresso humanista, homossexuais eram executados em público, por exemplo.

Outra prova desta pluralidade de pensamentos é demonstrada na própria arte, pois se na região de Flandres, Van Eyck tem uma percepção mais realista da beleza do corpo humano, na Itália, Botticelli retoma temas pagãos visando integrá-los a um neoplatonismo cristão. De certa forma a tentativa obteve sucesso, porém, o próprio pintor renegou sua obra por considerá-la herética, isto após ouvir os sermões pregados pelo Padre Girolamo Savonarolla.

Sandro BOTTICELLI (1445-1510)

O Nascimento de Vênus, c. 1485

Têmpera sobre tela, 172,5 x 278,5 cm

Galeria Ufizzi, Florença

A obra O Nascimento de Vênus, de Botticelli, é representativa da personificação do ideal da beleza feminina. Nela apresenta-se o momento em que a deusa emerge do mar em uma concha, empurrada pelo vento Zéfiro e recebe um manto, provavelmente inspirado nos contos de Metamorfose  de Ovídio, mas também pode ser interpretada como o nascimento da alma pelas águas do batismo. Para Chilvers (2007, p. 723): “Como os neoplatônicos consideravam a Beleza como o sinal visível da Divindade, não havia blasfêmia em utilizar a mesma expressão facial para Vênus e para a Virgem Maria”.

Sobre esta tela, Gombrich (2009, p. 264) comenta:

A Vênus de Botticelli é tão bela que não nos apercebemos do comprimento incomum do seu pescoço, ou o acentuado caimento dos seus ombros e o modo singular como o braço esquerdo se articula ao tronco. Ou, melhor ainda, deveríamos dizer que essas liberdades que por Botticelli foram tomadas a respeito da natureza, a fim de conseguir um contorno gracioso das figuras, aumentam a beleza e a harmonia do conjunto na medida em que intensificam a impressão de um ser infinitamente delicado e terno, impelido para as nossas praias como dádiva do Céu.

Aparentemente a nudez considerada bonita, comumente chamada de “nu artístico” tem certa licença por parte do público. Vale ressaltar que a nudez feminina sempre foi mais evocada que a masculina, com uma ilustre exceção: Michelangelo! Este escultor por vocação e pintor por demanda domina com precisão as formas masculinas, mas suas mulheres não têm nenhum traço que chegue próximo à beleza dos contornos considerados femininos.

Michelangelo BUONARROTI (1475-564)

A Expulsão de Adão e Eva do Paraíso (detalhe do teto da Capela Sistina, 1508-1512

Afresco

Capela Sistina, Vaticano

Neste detalhe da Capela Sistina que mostra Adão e Eva no momento em que estão comendo o fruto e quando estão sendo expulsos, parece que Michelangelo tirou bem mais que só a costela do homem para fazer a imagem da mulher, devemos considerar também as suas Sibilas na mesma capela, que tiveram vários desenhos elaborados antes da sua pintura e todos tem as mesmas características másculas, o que corrobora a tese de que todos os modelos de Michelangelo eram homens. Sabe-se que os clérigos costumavam ser bastante exigentes quanto as imagens que seriam colocadas na casa de Deus, na própria Capela Sistina alguns personagens foram “vestidos”, colocaram-se panos nos genitais porque não eram admissíveis no altar principal.

Na literatura podemos observar uma tentativa de romper com o pensamento padrão do catolicismo, embora após o Concílio de Trento a Igreja tenha se tornado muito mais atenta a tudo que considerava herético (mesmo assim havia um comércio clandestino de títulos). Rabelais publicou Pantagruel (1532) e Gargântua (1535) sob o pseudônimo de Alcofribas Nasier, um anagrama do seu nome. Estes textos cômicos, protagonizados por gigantes gulosos, exploravam lendas populares, romances e obras clássicas, sempre permeados pelo escatologismo e pela zombaria inerente ao autor, cujo alvo principal era a Igreja. Foi perseguido por isso, teve seus livros confiscados pela Sorbonne e escapou de repressões maiores porque contava com a proteção do cardeal Du Bellay.

Contemporâneo de Erasmo de Roterdã, G. Bude, Thomas Morus, Campanella, entre outros, tornou-se um grande humanista, visando libertar as pessoas de hábitos e superstições medievais, abrindo espaço para uma existência justa. Pela criação da cidade utópica de Thelema (vontade/desejo) na qual não havia governantes e cada um vivia de acordo com suas inclinações naturais para o bem, foi considerado por alguns como precursor dos ideais anarquistas.

 “O hábito não faz o monge, e há quem, vestindo-o, seja tudo menos um frade.” É com esta famosa citação de Rabelais que iniciamos nossa observação sobre uma das obras mais intrigantes que foi criada especificamente para um local de destaque numa igreja: O Êxtase de Santa Teresa, de Bernini. Apesar de ambas as personagens estarem vestidas, ela merece destaque aqui porque é emblemática pelo fato de demonstrar o limiar entre o sagrado e o profano. Esta cena foi criada com base nos relatos do diário da jovem Teresa, narrando a experiência mística que a fez se converter de uma vida fútil de moça rica a uma vida de profunda devoção católica. Porém, a expressão facial dela está muito mais próxima de um orgasmo do que de uma visão divina.

Gianlorenzo BERNINI (1598-1680)

Êxtase de Santa Tereza, 1647-1652

Mármore branco

Santa Maria della Vittoria, Roma

Até o momento nos detivemos em observar obras que de uma forma ou outra estavam ligadas à religião ou a mitos. É conveniente refletir que esta nudez é sempre velada, embora seios e coxas fiquem à mostra, há um gesto contido, uma delicadeza que remete sempre a um pudor de quem recém descobriu que está desprotegido e quer se cobrir, como no paraíso. Nosso enfoque a partir de agora serão corpos que se mostram e se contorcem de forma sensual, cuja inocência não é plácida, mas provocativa, corpos que se apresentam com o propósito de expor o seu poder vital: o erotismo.

Os artistas florentinos preferiam combinar seu interesse pelo nu com as preocupações intelectuais e religiosas, mas os venezianos estavam mais dispostos a abrir compartimentos. Ali uma pintura podia ser ao mesmo tempo grandiosa em escala e ousadamente secular em intento. (BELL, 2008, p. 202)

TICIANO - Tiziano Vecellio (c. 1485-1576) 

Vênus de Urbino, 1538

Óleo sobre tela, 119 x 165 cm

Galeria Uffizi, Florença

Esta Vênus de Urbino, pintada por Ticiano, bebe na mesma tradição que Botticelli, aliás, esta temática teve constante presença na história da arte. No entanto, apesar da pele alva e angelical, aparentando uma pretensa pureza, sua pose e seu olhar são tão atraentes que transformam-se em um convite ao sexo, talvez esteja mais relacionada ao mito pagão original da deusa do amor do que as outras representações.

Sobre esta obra em específico, Bell (2008, p. 202) comenta que “Tudo na dama nua de Ticiano, desde suas damas de companhia até seus brincos de pérola, denota elegância. Nada, porém, se desvia do estímulo sexual caloroso e penetrante que o pintor oferecia a Guibaldo della Rovere, seu nobre cliente”. Ao descrever a tela, sua reflexão continua:

Essa é uma pintura que se desvia das premissas sociais comuns. A modelo era supostamente alguma jovem paga por Ticiano. Ela se compraz em sua própria beleza – muito literalmente – em seu próprio sexo; e entretanto nada nela sugere que fosse uma prostituta, nem que a representação seja mera pornografia. (BELL, 2008, p. 204)

François Boucher era o pintor preferido de Madame de Pompadour, após retratá-la em poses delicadamente sensuais, mas sempre aludindo à sua inteligência e bom-gosto, fez a tela Odalisca, sob a qual residem suspeita de que a modelo seja sua própria esposa, conforme Diderot. A nudez aqui está carregada do espírito doce e melancólico do Rococó, foi graças ao senso estético da cortesã que Boucher pode se dedicar a estes temas.

François BOUCHER (1703-1770)

Odalisca, 1745

Óleo sobre tela, 53 x 64 cm

Museu do Louvre, Paris

Abaixo, a obra A Origem do Mundo, de Gustave Courbet, que tinha o objetivo de causar um escândalo com seu realismo e ângulo de visão. O título da obra não sugestiona pornografia, certamente é uma crítica a visão do corpo feminino que provavelmente ainda era (é) um tabu, porém, é algo muito natural, pois realmente é dele que todos nascem. Sobre ela Barzun (2002, p. 615) afirma: “Tão determinado estava Coubert em abalar as convenções que pintou um nu feminino numa pose relaxada que as revistas modernas de pornografia superior reservam para as páginas desdobráveis centrais [...]”.

Gustave COURBET (1819-1877)

A Origem do Mundo, 1866

Óleo sobre tela, 46 x 55 cm

Museu D'Orsay, Paris

Na Exposição Universal de Paris de 1889, o já consagrado e polêmico François Auguste René Rodin apresenta sua escultura O Beijo, inicialmente concebida para As Portas do Inferno (inconclusa), que foi encomendada pelo Estado para ser a entrada do Museu de Artes Decorativas e era baseada na Divina Comédia, de Dante Alighieri. A obra apresenta um casal despido no ato do beijo e carícias, aludindo ao relato de Francesca de Rimini que ao justificar sua presença no inferno, narra sua paixão vivida com o cunhado. Além disso, também está relacionada ao romance que o próprio Rodin mantinha com sua modelo e assistente Camille Claudel. Apesar de alguns espectadores a considerarem ofensiva, foi muito bem recebida por colecionadores e as cópias dela são inúmeras.

Conforme Bell (2008, p. 361):

O sexo – uma idéia, um princípio psicológico – vinha ganhando espaço como uma preocupação em si mesmo, à medida que as ansiedades históricas do século XIX davam lugar ao ritmo espiritual mais vívido, mais ríspido e em geral mais selvagem que Nietzche profetizara [...].

Auguste RODIN (1840-1917)

O Beijo, 1882-1889

Mármore, 182 x 112 x117 cm

Museu Rodin, Paris

Nos dias atuais, o nu extrapolou o artístico e caiu no cotidiano, comerciais de televisão, jornais, filmes, novelas, revistas, etc. Com o advento da internet e, mais recentemente, com o surgimento das redes sociais, a nudez (e também a pornografia) se proliferou ainda mais, até mesmo pessoas não envolvidas com as mídias podem se expor da forma que quiserem. Esta banalização do corpo gerou uma necessidade de transformá-lo em algo que não é, instaurando o fetichismo.

O antropólogo Massimo Canevacci (2010) desenvolve a tese de que existe uma força sedutora na arte contemporânea, que ele chama de “atrator”, algo que nos faz ficar perturbados frente a ela. Comenta ainda que “apesar de ter a mulher melancia, o Brasil é um país que tem uma sexofobia, um puritanismo. Não é prazer, é o máximo de perversão, sexo performático chato” e analisa que isto pode ter relação com a abrangência da igreja evangélica (Informação verbal)[1]. Mais uma vez temos uma crença resgatando a moral e os bons costumes, num eterno círculo histórico de “reforma e contra-reforma”, de “renascimento e barroco”, de “mostrar e esconder o corpo”.

A arte também questiona nossa idolatria exacerbada aos símbolos sexuais. Podemos citar Bob Wilson que em seu videorretrato Brad Pittdesconstrói os cânones do gênero, fazendo uma crítica à nossa relação atual com a nudez, pois o ator é mostrado como um homem indefeso e como um sex machine que, ao som de uma música similar a um realejo e de uma canção romântica sobre um homem que está a procura de uma mulher, mira com sua arma de brinquedo o espectador da obra.

 

Robert Wilson (1941 -  )

Brad Pitt, 2004

Videoretrato 

O criador ao ser interpelado sobre a obra afirma: “A interpretação é para os outros. Fixar um significado a um trabalho como este limita sua poesia e a possibilidade de outras ideias. Eles são pessoais, expressões poéticas de personalidades diferentes. Um homem da rua, um animal, uma criança, super stars, deuses de nosso tempo” (WILSON, 2010).

Estas breves reflexões buscam dar uma noção de como a visão do corpo foi sendo alterada culturalmente no Ocidente, influenciada por questões culturais, sejam religiosas, científicas ou artísticas. Não estamos fazendo apologias morais (talvez o contrário), apenas demonstrando que a busca pela plena expressão corporal e liberdade vem se desenvolvendo na cultura ao longo dos séculos, e talvez não tenha atingido ainda o seu ápice.

Da relação entre nudez e culpa muitos acreditam que estejamos livres por causa das permissividades atuais, mas não é o que ocorre na prática. Parece-nos que apesar de toda evolução no pensamento humano, a relação com o corpo ainda é um dilema ou um conflito moral. Mesmo a superexposição do corpo parece uma compensação por algo mal resolvido, mas aí estaremos saindo do campo da cultura e entrando no da psicologia e este, definitivamente não é o nosso objetivo.

REFERÊNCIAS

 

 

BARZUN, Jacques.  Da Alvorada à Decadência: História da Cultura Ocidental de 1500 aos nossos dias.  Rio de Janeiro: Campus, 2002.

 

BELL, Julian.  Uma Nova História da Arte.  São Paulo: Martins Fontes, 2008.

 

CHILVERS, Ian. Dicionário Oxford de Arte. 2ª Ed. São Paulo: Martins Fontes, 2001.

 

FEBVRE, Lucien.  Rabelais, a Reforma e Lutero. In: ______  O problema da incredulidade no século XVI.  São Paulo: Companhia das Letras, 2009.

 

GÊNESE.  In: Bíblia Sagrada.  São Paulo: Editora Ave-Maria, 1994.

 

GOMBRICH, Ernst H.  A História da Arte.  Rio de Janeiro: LTC, 2009.

 

WILSON, Robert.  A natureza morta é vida real. In: Robert Wilson Vídeo Portraits.  Porto Alegre: Santander Cultural, 2010. Folder da Exposição.

NOTAS

[1] CANEVACCI, Massimo.  Palestra proferida no Seminário Metrópole comunicacional, fetichismos visuais e artes. UFRGS: PPGPSI, 2010. (voltar ao texto na nota 1)

 

COMO CITAR ESSE TEXTO

BENACHIO, Ana Laura.  Toda nudez será castigada?  HACER - História da Arte e da Cultura: Estudos e Reflexões, Porto Alegre, 2016. Disponível em: <http://www.hacer.com.br/todanudez>. Acesso em: [dia mês. ano].